quarta-feira, 7 de novembro de 2012
O filósofo do martelo na academia
"Eu lamento agora que naqueles dias eu ainda não tinha coragem (ou imodéstia?) para permitir a mim mesmo, de todas as formas, minha própria língua individual..."
Estas palavras são de Friedrich Nietzsche (1844-1900), em tradução livre, do seu "Tentativa de Autocrítica", opúsculo escrito por ele como autocrítica, em 1886, ao seu livro "Nascimento da Tragédia" (primeira edição em 1872). A edição de 1886 ganhou como acréscimo ao título o subtítulo "Helenismo e Pessimismo".
Nietzsche foi minha primeira paixão na faculdade de filosofia da USP. Na época, recém-saído da medicina e em formação para ser psicanalista, o que nunca aconteceu, eu colocava em diálogo Nietzsche e Freud.
O filósofo do martelo me é inesquecível e continuo pensando com o martelo até hoje. Vocação é destino. Este trecho específico carrega em si muito do que Nietzsche significa para um filósofo profissional como eu, em constante mal-estar com o que a vida universitária se transformou, em épocas de produtividade industrial do ensino superior.
A fala de Nietzsche vai de encontro ao modo como somos formados, não sem razão, nas boas faculdades de filosofia: somos formados para não sermos originais. Hoje, entendo que qualquer originalidade possível em filosofia é algo conquistado a duras penas, assim como a santidade ou os movimentos precisos de uma dança --metáfora cara ao filósofo do martelo.
Lembro-me de uma das primeiras aulas em que um dos grandes professores que tive nos disse algo assim: "Você não está aqui para achar nada, antes de achar algo estude, e descobrirá que muita gente já pensou o que você pensa, e muito melhor do que você, antes de você."
Esta dureza acaba por fazer de nós pessoas menos opinativas e mais rigorosas, e isso é sem dúvida fundamental. Esta é a diferença entre pensar filosoficamente e pensar como senso comum. Vale lembrar que do ponto de vista da filosofia, as ciências humanas em geral são senso comum.
Rigor nada tem a ver com o que a academia se tornou com o passar dos anos: um antro de política lobista e de burocracia da produtividade a serviço da morte do pensamento. A universidade está morta e só não sente o cheiro do cadáver quem tem vocação para se alimentar de lixo. Fosse Kafka vivo e escrevesse um conto sobre nós, acadêmicos, nos colocaria com cara de ratos.
Imaginem Nietzsche preenchendo o currículo Lattes, uma plataforma informática que supostamente democratiza o acesso à produtividade da comunidade acadêmica, ao mesmo tempo em que normatiza e quantifica esta produtividade. Na prática, o Lattes serve para nos tomar tempo (sempre dá pau) e acumular platitudes e repetições que visam a quantificação de um quase nada de valor.
Agora imaginem Nietzsche às voltas com relatórios anuais da Capes, que junto com o Lattes, institucionaliza e quantifica esta mesma produtividade de um quase nada de valor.
Não existiria filosofia se nossos patriarcas, de Platão a Nietzsche (para citar dois grandes), tivessem que preencher o Lattes, fazer relatórios Capes ou serem "produtivos". Todos seriam o que, aos poucos, nos transformamos: burocratas mudos da própria irrelevância. Analfabetos do pensamento.
Uma das formas de sobreviver a este processo de produtividade de massa é obrigar nossos alunos a pesquisar aquilo que não querem, de uma forma que não querem, a fim de garantir verbas institucionais de pesquisa em grande escala. Esmagamos a criatividade e as intenções dos alunos fazendo deles uma infantaria estatística. A universidade mente: quer formar rebanhos dizendo que defende a liberdade de pensamento.
Lutamos dia a dia para conseguirmos sobreviver aos montes de formulários e demandas do mundo dos ratos. A universidade aos poucos sucumbe aos efeitos colaterais de um mundo que, como diria Nietzsche, vomita "ideias modernas". Os processos de democratização do saber, como suspeitava nosso filósofo, são processos de produção de nulidades em grandes quantidades.
Mais do que nunca é urgente sermos corajosos e imodestos para acharmos nossa própria língua individual.
Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/1180196-o-filosofo-do-martelo-na-academia.shtml
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Dos Estados Unidos à Europa
1. Os americanos vão hoje às urnas. Não sou vidente. Não vou cansar o leitor com análises detalhadas sobre os "swing states", os votos colegiais, as últimas pesquisas. Tudo é possível.
Mas, dentro do possível, confesso que gostaria muito que Mitt Romney ganhasse. Eu sei, heresia: lemos a imprensa "liberal" (no sentido americano da palavra, ou seja, esquerdista) e Romney é apresentado como um fanático que acredita em extraterrestres. Pior: um fanático que pretende entregar os Estados Unidos à plutocracia doméstica, de que ele faz parte.
Barack Obama, pelo contrário, é a personificação da bondade e do realismo. Mesmo Guantánamo, que continua a funcionar, tem outro sabor com Obama: no tempo de Bush, a prisão era o inferno terreno e a prova da malignidade republicana. Com Obama, Guantánamo é um jardim de infância.
Sejamos sérios: o julgamento sobre Obama, quatro anos depois, não pode ser brando ou entusiasmante. Fato: em 2008, Obama recebeu de herança uma nação quebrada. Novo fato: em 2008, Obama dispunha de condições incomparáveis --aprovação popular em níveis estratosféricos, Congresso favorável etc.-- para fazer mais e melhor.
Não fez. Um crescimento econômico que se arrasta penosamente nos 2% é tímido, para usar um eufemismo. O desemprego perto dos 8% seria o suficiente para que ele perdesse a reeleição. E a República, agravando o desvario iniciado por George W. Bush, continua dramaticamente endividada --e a endividar-se.
Como escreveu certeiramente Tim Stanley, no "Daily Telegraph", o problema de Obama não é ser o anti-Bush. É, ironia das ironias, repetir os erros de Bush ao permitir um Estado sem controle na despesa e disposto a infiltrar-se na vida comum do cidadão comum.
É por isso que a eleição de hoje não é apenas mais uma eleição na história da América. É, como afirma Romney e sobretudo o seu candidato a vice, Paul Ryan, uma espécie de plebiscito sobre o tipo de sociedade que a América pretende ser no século 21.
Para Obama, o ideal seria que a América se aproximasse da Europa e do modelo de bem-estar social.
Infelizmente, alguém deveria explicar ao presidente Obama que a crise corrente que ameaça destroçar a União Europeia está diretamente relacionada com a insustentabilidade desse modelo social.
Cuidado, América: para Europa, já basta a que temos.
2. E por falar em Europa: leio no "Times Literary Supplement" uma passagem notável das memórias de Madame de Staël.
Conto rápido: já depois da Revolução de 1789, o ministro de guerra Louis de Narbonne-Lara discursava na Assembleia Legislativa.
A páginas tantas, o infeliz ministro introduziu no discurso a expressão "apelo aos mais distintos membros desta Assembleia". Foi a revolta geral, com os jacobinos a relembrarem ao ministro que, naquela Assembleia, todos os membros eram igualmente distintos.
A história é interessante para conhecermos a cabeça do fanatismo igualitário em ação. Mas mais interessante é a observação de Madame de Staël: "para os jacobinos", escreve ela, "a aristocracia de talento era tão repugnante como a aristocracia de berço".
Relembro esta história, hoje, ao saber que na mesma França da Bastilha o presidente François Hollande pretende banir do sistema educativo os deveres de casa.
Corrijo: Hollande não quer banir os deveres. Pretende apenas que eles sejam integralmente realizados na escola, não em casa. Isso permitirá que as diferenças socioeconômicas das famílias não tenham qualquer interferência no respectivo mérito escolar dos filhos. Todos iguais, todos na escola.
Claro que, para sermos perversos, poderíamos perguntar ao senhor presidente o que tenciona ele fazer se alguns alunos, em manifesto desrespeito igualitário, violarem a medida. Como?
Estudando na escola e, depois, estudando um pouco mais em casa, ou nos cafés, ou nas bibliotecas. Será permitida essa busca da excelência extracurricular?
Ou o Estado francês, em nome da igualdade, também pretende instalar um policial em cada casa, café ou biblioteca, disposto a vigiar e punir o mais leve sintoma de curiosidade intelectual?
Esperemos pelas cenas dos próximos capítulos.
João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do "Correio da Manhã", o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve às terças na versão impressa de "Ilustrada" e a cada duas semanas, às segundas, no site.
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/1180731-dos-estados-unidos-a-europa.shtml
domingo, 4 de novembro de 2012
A politização do crime
Ao tratar o PCC como uma espécie de “Partido Comunista do Crime”, calcado numa “igualdade” revolucionária, as universidades brasileiras — influenciando tucanos e petistas — deformam a segurança pública no país
Cartaz das Mães de Maio: campanha contra os tucanos e cartaz sobre “genocídio negro”: em prol do conflito racial
José Maria e Silva
Ainda faltam 60 dias para o prefeito eleito de São Paulo (o petista Fernando Haddad) tomar posse, mas a sucessão de 2014 no Estado de São Paulo e no Brasil já foi deflagrada a partir de sua vitória. É o que mostra a carta do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo (PT), ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, dando prosseguimento a um bate-boca eleitoral que se acirrou às vésperas do segundo turno — o crescimento do número de homicídios em São Paulo, inclusive com o assassinato de 88 policiais. Nos últimos dias da campanha, auxiliares do governo Alckmin acusaram o governo federal de não ajudar o Estado no combate à violência, deixando de cuidar das fronteiras do país, o que facilitaria o contrabando de armas por parte do crime organizado.
Em nota oficial publicada na terça-feira, 30, o Ministério da Justiça rebateu as declarações, apresentando dados sobre apreensão de armas e drogas por parte da União, em parceria com Estados, e insistindo que, desde junho, havia oferecido ajuda ao governo paulista para enfrentar a violência em São Paulo. Além da nota oficial, o ministro José Eduardo Cardozo enviou carta ao governador Geraldo Alckmin afirmando que o governo federal está disposto a ajudar o Estado no combate ao crime organizado, mas fazendo a seguinte observação: “Passou a época em que a segurança pública era disputa de mocinhos e bandidos. As ações têm de ser integradas, envolvendo União, Estados e municípios”.
Segundo o ministro da Justiça, o governo federal não será mero “repassador de recursos” para o governo paulista gerenciar sozinho a segurança do Estado. Diz Cardozo que a ajuda da União só ocorrerá se São Paulo negociar um “planejamento estratégico” de segurança pública que promova uma atuação conjunta de forças e órgãos federais e estaduais a partir de “um plano de ação predefinido, fundado no compartilhamento aprofundado de informações na área de inteligência policial, bem como na análise de técnicos e especialistas”. O modelo, segundo a nota oficial do Ministério da Justiça, são os Estados do Rio de Janeiro e Alagoas, onde a Força Nacional de Segurança está atuando em parceria com as forças estaduais; na prática, apenas afugentando bandidos de um lado para outro, já que não prendem quase ninguém de verdade.
A proposta do ministro petista parece irrecusável e dá a impressão de que o governo paulista, apenas por ser tucano, prefere pôr em risco a segurança da população a aceitar a ajuda do governo rival. Mas isso é só aparência. Essa oferta do Ministério da Justiça (aceita pelo governo de São Paulo na quinta-feira, 1º) não é capaz de apagar o uso eleitoral que o PT — incluindo o governo Dilma Rousseff — sempre fez da criminalidade em São Paulo. Sem contar o apoio que a esquerda sempre deu aos criminosos a pretexto de defender os direitos humanos. Quando, em janeiro deste ano, o governo Alckmin resolveu enfrentar a Cracolândia, que atormentava a população trabalhadora do centro de São Paulo, os petistas, inclusive setores do governo federal, endossaram as críticas das ONGS e universidades à ação da polícia no local, já pensando nas eleições deste ano e de 2014.
Bandidos utópicos
Todavia, o PT nem precisa verbalizar suas críticas ao PSDB. As universidades brasileiras, começando pela Universidade de São Paulo (USP), se encarregam de acusar os tucanos de todos os males do país. O governo Fernando Henrique Cardoso foi o responsável pelo fim da inflação e, consequentemente, pela mais significativa melhoria de vida da população pobre na história recente do país. Mas, ao longo dos seus dois mandatos, mesmo não havendo esqueletos etíopes mendigando nas ruas, os acadêmicos insistiam em dizer que havia no país uma fome africana, com 57 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza e 17 milhões padecendo de miséria absoluta.
Bastou o PT chegar ao poder em 2002 e esses milhões de miseráveis desapareceram num passe de mágica. Famílias com apenas 291 reais per capita ao mês foram transformadas nos “mais de 40 milhões de integrantes da nova classe média”, num revisionismo econômico de fazer inveja aos neonazistas, que ainda negam o holocausto judeu na Segunda Guerra Mundial. Mas o milagre de multiplicação dos pães e erradicação da miséria — promovido no papel pelas universidades — não vale para os Estados governados pela oposição. No Estado de São Paulo, por exemplo, a imagem que prevalece nas teses universitárias e seus derivados, como artigos e debates, é a de um Brasil brutalmente desigual, em que violência toma o lugar da fome na tarefa de alargar o fosso social entre as elites e os pobres.
De acordo com dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), uma fundação do Ministério da Educação, o Brasil conta em 2012 com mais de 3.300 teses de doutorado e dissertações de mestrado que tratam de segurança pública. Caso se acrescente a esse quantitativo as teses e dissertações que tratam de temas correlatos, como crime, violência e direitos humanos, o número passa de 20 mil trabalhos acadêmicos sobre segurança pública defendidos nos últimos 30 anos. Esses dados foram ressaltados pela “Revista Brasileira de Segurança Pública” em seu 11º número, publicado em agosto último. A revista foi criada em 2007 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que congrega pesquisadores de todo o país e recebe apoio de entidades nacionais e estrangeiras, entre elas o próprio Ministério de Justiça.
Mas esses estudos, em sua maioria, não estão a serviço da ordem constituída — servem à transgressão, para não dizer ao próprio crime. Exemplo disso é a revista “PUC Viva”, cuja edição de agosto trouxe como tema: “Encarceramento em Massa: Símbolo do Estado Penal”. Com 16 artigos, a revista é dedicada à “luta permanente pelo fim do sistema prisional”, como afirma sua editora responsável, a professora Maria Beatriz Costa Abramides, doutora em assistência social pela PUC-SP. Segundo ela, está em curso uma “estratégia estatal de criminalização dos pobres pela limpeza étnico-racial e de contenção social, necessária ao estágio atual de manutenção do capitalismo após sua crise estrutural no plano internacional a partir de 1975, que se agudiza em 2007 e se aprofunda a partir de 2011”. Por isso, escreve a doutora da PUC-SP, a revista possibilita “o combate permanente contra a barbárie do capitalismo, na direção da luta por uma sociedade sem sistema prisional, anti-imperialista, anticapitalista, socialista”.
Negros em guerra
Quem achou esse discurso arcaico demais, até mesmo improvável às vésperas do 23º ano da Queda do Muro de Berlim, que se comemora no próximo dia 10 de novembro, fique sabendo que ele é a regra nas universidades. Os acadêmicos mais presunçosos apenas evitam esse estilo panfletário, revestindo o velho marxismo com a verborragia pós-moderna de autores como Gilles Deleuze, Félix Guattari, Michel Maffesoli e o indefectível Michel Foucault — o papa da maioria dos pesquisadores brasileiros que se ocupam de criminalidade, violência urbana, violência escolar, direito penal e segurança pública. E é lendo, relendo e até subvertendo o próprio Foucault que os acadêmicos enxergam o mundo pelo avesso, sem regras nem prisões, sempre sonhando com a Revolução onde o cidadão amarga o crime — pois é com o próprio sangue que o sente e sabe.
Que não se pergunte a essa gente como seria uma sociedade sem prisões. Obviamente não terão resposta sobre o que fazer com um estuprador fazendo ronda numa escola ou com o latrocida escarnecendo dos familiares de sua vítima. O que lhes interessa é simplesmente atacar o capitalismo e, para tanto, não conhecem limites morais. Prova disso é que o lançamento da revista “PUC Viva”, em 15 de agosto deste ano, no auditório da PUC-SP, foi celebrado por muitos acadêmicos como peça de campanha contra o governo Alckmin, acusado de promover o “genocídio da juventude negra e periférica”. Cartazes ostentando um jovem negro com o revólver apontado para sua nuca e uma mãe negra com o filho baleado nos braços (símbolo do movimento das “Mães de Maio”, lembrando “O Meu Guri” de Chico Buarque) estão espalhados nas redes sociais frequentadas por alunos de pós-graduação das universidades paulistas. Como se os jovens negros fossem sempre inocentes.
Negros, mulheres, sem-terra, homossexuais, insanos, drogados, meninos de rua e, agora, presidiários – é assim que a esquerda acadêmica vai construindo um transgressor para chamar de revolucionário, desde que o proletariado perdeu sua força política e ela teve que engendrar outras massas de manobra. Nos últimos anos, muitos acadêmicos marxistas tecem loas ao Primeiro Comando da Capital (PCC), a facção criminosa que domina a maioria dos presídios paulistas e se espalha por vários Estados. Descoberto em 1997 pela repórter Fátima Souza, autora do livro “A Facção” (Editora Record, 2007), o PCC se tornou célebre com as reportagens e, posteriormente, o livro “Cobras e Lagartos” (Editora Objetiva, 2004) do repórter Josmar Jozino. O próprio governo do Estado, que, a princípio, não quis admitir sua existência, teve que se render aos fatos depois da megarrebelião de 2006, que aterrorizou São Paulo.
Além das reportagens e livros jornalísticos, o PCC também inspira dezenas de teses, dissertações e artigos acadêmicos. Parte da universidade brasileira enamorou-se do PCC e vê nele uma espécie de “Partido Comunista do Crime”. Algumas teses universitárias atribuem à facção criminosa o mérito pela redução do índice de homicídios no Estado de São Paulo — a redução mais expressiva entre todos os Estados brasileiros. Segundo os acadêmicos que estudam a facção criminosa, o PCC proibiu radicalmente o crack dentro dos presídios com o objetivo de evitar brigas e assassinatos entre os próprios presos. Além disso, instituiu uma espécie de “tribunal penal” nas favelas sob seu controle, inibindo os crimes comuns contra a própria comunidade, numa espécie de reedição do que teria ocorrido no Rio de Janeiro, no passado, em alguns morros.
O “drogaduto” uspiano
Essa tese não é de todo implausível, caso se leve em conta que toda organização criminosa duradoura necessita de um certo lastro social, como ocorreu, por exemplo, com o cangaço nordestino na virada do século 19 e nas primeiras décadas do século 20, até que a ditadura de Getúlio Vargas eliminasse o bando de Lampião. Mas isso não autoriza um estudioso a enxergar nessas estruturas sociais do crime uma alternativa superior à ordem constituída. Mas é o que têm feito, nem sempre sub-repticiamente, as pesquisas sobre o PCC nas melhores universidades do país, inclusive na USP — que, segundo reportagem da “Folha de S. Paulo”, publicada na quinta-feira, 1º, é ligada por um túnel a uma favela, por onde os estudantes compram droga. O “drogaduto” uspiano foi descoberto por acaso pela polícia, que cumpria mandado de prisão contra um traficante da favela.
Segundo a maioria dos especialistas na facção criminosa, tanto jornalistas quanto acadêmicos, o PCC é responsável pela quase totalidade dos assaltos, sequestros e pelo tráfico de drogas em São Paulo, o que pressupõe muitas mortes de inocentes nessas ações. Mas em alguns trabalhos acadêmicos sobre o PCC, termos como “homicídio”, “latrocínio” e “assalto” praticamente não aparecem. Aliás, “homicídio” aparece — quase sempre associado à polícia. O que encanta alguns acadêmicos são os códigos da bandidagem, tratados por eles com o mesmo respeito com que um antropólogo deve tratar a tribo que lhe serve de objeto de pesquisa. Tanto que, em alguns trabalhos, os membros do PCC são chamados de “nativos” — o que reveste seus crimes de uma verdadeira aura cultural, infensa às leis penais vigentes e merecedora do respeito da sociedade, caso se leve a sério essa linguagem.
A socióloga Karina Biondi, por exemplo, na dissertação “Junto e Misturado: Imanência e Transcendência no PCC”, defendida em 2009 na prestigiosa Universidade Federal de São Carlos e publicada em livro, acaba idealizando a facção criminosa ao se limitar a descrever seus hábitos, sem qualquer questionamento crítico. E se deixa encantar pelo lema do PCC, “Paz, Justiça e Liberdade”, ao qual se somou “Igualdade”, inscrita por ocasião da guerra interna da facção que elevou Marcos Willian Herbas Camacho, o Marcola, à condição de líder. Ao descrever os membros “batizados” no PCC, que se chamam mutuamente de “irmãos”, Biondi explica: “O irmão deve, sobretudo, ser humilde, encarar todos e a cada um como um igual e não se considerar mais ou melhor que outros, característica consoante com o ideal de Igualdade. A humildade é considerada ao mesmo tempo característica, habilidade, postura e atitude que todo irmão deve ter”.
Ao traçar essa ética verdadeiramente franciscana da organização criminosa, negando, praticamente negando que haja hierarquias na organização, a pesquisadora (que, hoje, faz doutorado em antropologia social na Universidade Federal de São Carlos) esquece-se de informar que o “batismo” no PCC, que transforma o indivíduo em “irmão”, geralmente se dá por meio do cumprimento de uma missão em nome do comando, como o assassinato de um policial ou de um inimigo da facção. Em sua pesquisa anterior sobre a organização criminosa, desenvolvida quando fazia graduação em sociologia na USP, Biondi chega a afirmar que o PCC surgiu da luta dos injustiçados por seus direitos. O interesse da pesquisadora pelo tema surgiu de sua peregrinação pelos presídios paulistas em visita ao marido que esteve preso durante cinco anos. Foi ele quem lhe possibilitou o acesso aos “irmãos” do PCC — que, ao cabo da pesquisa, leram e deram o aval à sua dissertação de mestrado. E a universidade parece achar tudo isso muito natural.
O que escandaliza a universidade brasileira é o cidadão aceitar a ordem social e cumprir as leis vigentes. A universidade fica inconformada quando o cidadão de bem, entre o medo e a indignação, clama pelo fim das regalias para bandidos. Os pesquisadores universitários, que tanto gostam de enaltecer as massas, tratam com absoluto desprezo a vontade da maioria esmagadora da nação quando o assunto é segurança pública. Do total de 193,9 milhões de brasileiros, 172,6 milhões são favoráveis à redução da maioridade penal, segundo enquete do Data-Senado, divulgada em 23 de outubro último. Em outras palavras, 89% da população brasileira não concorda com o artigo 228 da Constituição que estabelece a maioridade penal aos 18 anos. Outros 35% desejam que ela seja estabelecida aos 16 anos, 18% indicaram 14 anos e 16% apontaram 12 anos. E expressivos 20% dos entrevistados responderam “qualquer idade”, entendendo que o menor que comete crime, independentemente de quantos anos tenha, deve responder como um adulto perante a lei.
Essa nova enquete — que ouviu a população sobre o projeto de reforma do Código Penal — corrobora todas as pesquisas já realizadas sobre segurança pública no país, inclusive pesquisa do Datafolha de 2004. Em abril último, outra pesquisa do instituto do Senado mostrou que, para 87% dos brasileiros, os menores infratores devem receber punições iguais às dos adultos. A pesquisa também constatou que 97% da população brasileira repudia o direito de quem comete crime hediondo responder o processo em liberdade. Para 93% dos entrevistados, os autores de crime hediondo não devem ter direito a saídas temporárias e, para 88%, também não devem ter direito ao regime semiaberto, mesmo que apresentem bom comportamento.
Esses dados comprovam o que tudo mundo já sabe: a esmagadora maioria dos brasileiros está do lado da lei e da ordem e quer ver bandido na cadeia — mas preso de verdade e não dispondo de celulares, visitas íntimas e cinco saídas temporárias de sete dias cada, entre outras regalias. As pessoas de bem estão cansadas de se trancarem em casa com a família, muitas vezes inutilmente, como no caso da atriz Cecília Bizzotto, 32 anos, assassinada por assaltantes que invadiram sua casa, em Belo Horizonte, na madrugada do domingo em que se deu o primeiro turno das eleições. Ou o caso do empresário Hugo Palazzi, um idoso de 83 anos, morto com um tiro no rosto, durante um assalto a sua casa, em Campinas (SP), pouco depois do segundo turno das eleições de 2010. John Kleber Batista Dias, o bandido que o matou, tinha 18 anos na época e fora preso uma semana antes por roubo, mas a polícia teve que soltá-lo devido ao Código Eleitoral.
Em 2010, uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) da Presidência da República) mostrou que 79% dos brasileiros tinham medo de morrer assassinados. E não é para menos. Segundo o “Mapa da Violência 2012”, de autoria do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz e sua equipe do Instituto Sangari, “o Brasil passou de 13.910 homicídios em 1980 para 49.932 em 2010, um aumento de 259%, equivalente a 4,4% de crescimento ao ano”. Só no Estado de São Paulo, em 2011, ocorreram 308 latrocínios, 22% dos quais praticados na residência da vítima assaltada. E um levantamento da Polícia Civil constatou que 13% desses latrocidas tinham entre 12 e 17 anos, enquanto 58% (a maioria) tinham entre 18 e 25 anos. E olha que em São Paulo os homicídios tiveram uma queda de 63%, a mais expressiva do país. Na Bahia governada pelo PT (que quer dar lição a São Paulo) a criminalidade cresceu 332,4% no mesmo período, o maior aumento entre os 27 Estados.
Comunhão de equívocos
Mas se tucanos e petistas se diferenciam em algumas ações práticas de combate à criminalidade (como a maior ênfase dos tucanos na prisão de bandidos), os dois partidos se igualam na defesa de uma visão equivocada de Justiça Criminal: a de que cadeia não significa segurança, mas educação, e que o preso não tem de ser segregado, mas reeducado. Essa visão está destruindo a sociedade brasileira. Hoje, a prisão deixou de ser uma faculdade do crime para se tornar um câncer social. A pretexto de recuperar o preso, o Estado brasileiro entrega crianças e adolescentes para o mundo do crime ao obrigá-los a passar todos os seus finais de semana dentro das prisões, naturalizando um mundo do qual deveriam ser absolutamente preservados.
Todas as teses sobre prisão que já li trazem nas entrelinhas relatos de crianças definitivamente deformadas por esse mundo do crime —mas todos os seus autores se calam sobre isso, pois só lhes interessa criticar o “Estado repressor” e defender ainda mais regalias para os presos, independentemente da gravidade de seus crimes. Karina Biondi, a doutoranda da Universidade de São Carlos, relata uma madrugada de sábado em que chegou às 2 horas da manhã na porta da cadeia para visitar o marido preso e já encontrou 239 mulheres na frente dela, pois a fila começara a se formar na madrugada de quinta-feira, organizada por uma mulher provavelmente do PCC, que recebia ordens de um preso pelo telefone celular. E a preferência naquela rígida fila da prisão, conta a pesquisadora, era só para mulheres grávidas e crianças de até 2 anos.
Atentem para esse detalhe: cadeia, relento, madrugada. Isso combina com criança? E se a criança tiver mais de 2 anos, nem preferência na fila ela tem — é tratada como adulto, submetida ao relento, em plena madrugada, na porta de uma prisão, repita-se. Tudo em nome do direito de um criminoso preso, que, se fosse mesmo gente e tivesse recuperação, seria o primeiro a não querer ver os filhos e a companheira em ambiente tão sórdido. Pesquisadores das maiores universidades brasileiras tomam conhecimento dessa realidade, mas, diante de casos assim, jamais se lembram do Estatuto da Criança e Adolescente, uma lei que, além de incriminar professores e pais decentes, só serve para proteger criminoso mirim, aquele que quando mata para roubar pratica “infração análoga a latrocínio”, segundo a linguagem moralmente criminosa da Justiça brasileira. Hoje, até criminosos de 18 a 29 anos passaram a ser chamados oficialmente de “jovens em conflito com a lei”, como se os defuntos que produzem não fossem mortos, mas “pessoas em conflito com a vida”.
http://www.jornalopcao.com.br/posts/reportagens/a-politizacao-do-crime
PT versus PSDB O silêncio dos cúmplices
A indiferença de tucanos e petistas ante a estarrecedora carnificina de policiais em São Paulo (algo inadmissível numa nação civilizada), além de provar que não há oposição no país, deixa o brasileiro à mercê dos criminosos
José Serra: teses de segurança não diferem das do PT; Fernando Haddad: candidato poupado do kit gay; Celso Russomanno: destruição terceirizada pelo PT
José Maria e Silva
Desde que PT e PSDB se tornaram os mais emblemáticos partidos do país, transformando os demais em satélites de seus projetos de poder, a disputa entre ambos aflora a cada dois anos, seja nas eleições municipais, seja nas eleições nacionais. E o Estado de São Paulo — pátria dos dois partidos — é o epicentro desse aparente sismo ideológico que repõe no debate público conceitos antitéticos como “esquerda versus direita”, “progressistas versus conservadores”, “proletários versus burgueses”. Nas eleições deste ano não foi diferente e, em que pese o julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (que está condenando à cadeia boa parte da elite petista), o que mais marcou a eleição para prefeito de São Paulo foi o embate entre “progressistas” e “conservadores” fomentado pelos formadores de opinião (leia-se universidades e seu cavalo-de-santo: a imprensa). Segundo essa peculiar leitura de mundo (que tem a força incontestável da ficção), o candidato petista Fernando Haddad é o representante dos progressistas, enquanto o candidato tucano José Serra encarna os “conservadores”, palavra que a imprensa usa como sinônimo de “retrógrados”.
No primeiro turno, o embate entre Serra e Haddad foi ofuscado pelo fenômeno Celso Russomanno (PRB), que liderou as pesquisas de opinião pública durante boa parte da campanha, chegando a dar a impressão de que o petista Fernando Haddad ficaria fora do segundo turno. Essa possibilidade fez com que o PT se desesperasse, partindo para o ataque contra o deputado federal e apresentador de TV que também posa de defensor dos consumidores. Mas, para o PT, não convinha enfurecer o aliado Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e padrinho do candidato do PRB, inclusive com um ministro (Marcelo Crivella, da Pesca) no governo Dilma Rousseff. Por isso, os petistas terceirizaram o trabalho de destruição de Russomanno, deixando-o por conta da imprensa paulista — aliada quase indisfarçável de Fernando Haddad. E os jornais de São Paulo tiveram seu trabalho facilitado pelo concurso de outra aliança espontânea — a da Rede Globo, que não queria ver no comando da Prefeitura de São Paulo um pupilo de Edir Macedo, dono da Rede Record. Essa frente ampla contra Russomanno liquefez sua candidatura em menos de um mês e ele ficou fora do segundo turno.
Assim que Serra e Haddad ficaram sozinhos frente a frente, a imprensa trouxe de volta a aparente diferença ideológica entre eles, tentando impingir ao candidato tucano a pecha de conservador. O apoio do pastor Silas Malafaia a José Serra foi o principal pretexto que os petistas (explicitamente) e a imprensa (nas entrelinhas) usaram para tachar de conservador o candidato tucano. Não no sentido normal que a palavra “conservador” carrega, mas com uma carga pejorativa, como sinônimo de “retrógrado”, “atrasado”, “reacionário”. Pastor da Assembleia de Deus no Rio de Janeiro e vice-presidente do Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil (Cimeb), que congrega mais de 8,5 mil pastores, Malafaia criticou Fernando Haddad diretamente, responsabilizando-o pela distribuição do chamado “kit gay” nas escolas públicas do país, quando era ministro da Educação. Na época, graças às denúncias da bancada evangélica no Congresso Nacional, que tem entre seus líderes o deputado goiano João Campos (PSDB), a distribuição do kit gay acabou sendo suspensa pela presidente Dilma Rousseff, numa inequívoca admissão de que o material nada tinha de educativo e não passava mesmo de uma promoção descabida do homossexualismo (assim mesmo, com o sufixo “ismo”, que remete à ideologia).
Subproduto do Plano Real
A “Folha de S. Paulo” chegou a utilizar uma pesquisa do Datafolha para afirmar que as declarações de Malafaia em favor de Serra fizeram o tucano perder votos, que só teriam sido recuperados depois que o kit gay perdeu espaço no noticiário. Trata-se de uma análise tendenciosa, cujo principal objetivo — mais do que atacar Serra e poupar Haddad do desgaste do kit gay — é cassar a cidadania dos conservadores. Ser conservador no Brasil é pior do que ser criminoso. Por isso, o próprio Serra evitou falar do kit gay durante a campanha, com medo da pecha de conservador. Afinal, não existe política pública pensada pelo PT que não tenha sido executada pelo PSDB, começando pelo combate à homofobia, que, juntamente com as políticas raciais, causa graves danos ao país. PT e PSDB são irmãos siameses, filhos da universidade brasileira, e comungam os mesmos ideais de transformação da sociedade capitalista. Suas diferenças se dão muito mais na forma de atuação do que na essência do que professam. O PT é sinônimo de luta; o PSDB, de moderação. O PT, para o bem e para o mal, é um partido de verdade, com forte lastro social. Já o PSDB não existe: é mero subproduto do Plano Real. Como partido, só deu certo em São Paulo, mas pode estar com os dias contados, caso se confirme a vitória de Haddad nas urnas.
Mas o principal sintoma da iminente falência política do PSDB não é exatamente a incapacidade do partido de bombardear o kit gay distribuído nas escolas pelo MEC de Haddad. Mesmo se o PSDB fosse contra a falaciosa política de combate à homofobia (e ele não é), ainda assim não seria fácil discutir um tema complexo e multidisciplinar como esse numa campanha majoritária. O mesmo não se pode dizer da segurança pública, que pode — e deve — ter lugar até mesmo nas campanhas municipais, em que pese o poder de polícia ser privativo da União e dos Estados. Mas o PSDB jamais discutiu esse tema a contento, nem mesmo nas eleições para o governo de São Paulo ou para presidente da República. Às vezes em que José Serra e Geraldo Alckmin abordaram o assunto foi para repetir as teses do próprio PT, que advoga a completa emasculação da polícia e prega que todos os criminosos são vítimas da desigualdade social. Graças a isso, o PT consegue encurralar o PSDB até na questão da segurança pública, em que pese São Paulo ser o Estado que, disparadamente, mais reduziu a taxa de homicídios no país, passando de 42,2 homicídios por 100 mil habitantes em 2000 para 13,9 em 2010 — uma queda de 67%.
Mas, neste ano de 2012, os homicídios voltaram a crescer no Estado. Em setembro último, vésperas das eleições, somente na capital paulista ocorreram 135 homicídios, 96,5% a mais do que os 69 homicídios ocorridos na cidade em setembro do ano passado. Todavia, o dado mais preocupante dessa estatística é o número de policiais mortos no Estado. Até a última sexta-feira, 88 policiais militares haviam sido mortos em São Paulo, além de dezenas de outros que foram feridos ou atacados por marginais. Na maioria dos casos, os policiais não morreram em troca de tiros com bandidos, mas nas horas de folga — premeditadamente executados, algumas vezes na frente da esposa e filhos. Acredita-se que o PCC (Primeiro Comando da Capital) esteja por trás desses ataques aos policiais, que também aterrorizam seus familiares. Em reportagens de TV, quando mulheres de policiais são entrevistadas, elas expressam seu pânico por meio do anonimato, com a voz eletronicamente distorcida e o rosto encoberto em sombras. Em São Paulo, muitos policiais voltam do trabalho em comboio, com medo das emboscadas. É a completa inversão dos valores que fundamentam a civilização — enquanto os agentes da ordem constituída se escondem, os bandidos estão soltos nas ruas.
Prisões viraram santuários
Em qualquer nação civilizada, as 88 mortes de policiais em São Paulo — quase dez mortes por mês — já seriam motivo suficiente para parar o país. Anualmente, mais policiais são mortos no Estado de São Paulo do que em todos os Estados Unidos, um país com 856 mil quilômetros quadrados a mais do que o Brasil e com uma população de 308,7 milhões de habitantes, ou seja, quase 115 milhões de habitantes a mais do que a nossa população. Apesar de seu tamanho gigantesco e de sua extrema complexidade demográfica, que agrega imigrantes provenientes de todos os rincões do mundo, alguns propensos ao terrorismo, os Estados Unidos, segundo dados do FBI (Federal Bureau of Investigation), contabilizaram em todo o ano de 2011 apenas 72 mortes de policiais por criminosos. Mas esse número — significativamente menor que as mortes de policiais em São Paulo apenas nos dez primeiros meses deste ano — já é motivo de grande preocupação para as autoridades norte-americanas, segundo a reportagem do “The New York Times”, publicada em 9 de abril deste ano, que traz esses dados. É que, enquanto os crimes violentos diminuíram no país, houve um aumento de 25% no número de policiais mortos em 2011 quando comparados aos 56 policiais mortos no ano anterior em todo o país.
Para se ter uma ideia do quanto os Estados Unidos — ao contrário do Brasil — valorizam a vida daqueles que zelam pela ordem social, o FBI monitora meticulosamente as mortes de policiais em todo o país desde 1937, por meio de estudos do John Jay College, faculdade dedicada à Justiça Criminal. Já o The National Law Enforcement Officers Memorial, sediado em Washington DC, dedica-se a perpetuar, ano após ano, o nome de cada agente da lei morto em serviço. O primeiro caso do gênero conhecido e perpetuado pelo memorial data de 221 anos atrás, ainda na infância do país. Trata-se do xerife Cornelius Hogeboom, de Hudson, no Estado de Nova York, baleado e morto em 22 de outubro de 1791, quando tentava cumprir um mandado de reintegração de posse. Já no Brasil, ocorre justamente o contrário: enquanto o policial tomba anonimamente como estatística desprezível, o bandido morto em confronto com a polícia é que se transforma em vítima. Isso quando não vira herói, eternizado em filmes, livros e teses acadêmicas, como ocorreu com o bandido do Ônibus 174. Outro exemplo é a santificação dos bandidos mortos no Carandiru — verdadeiro marco da impunidade dos presos no país. Depois daquela chacina, as prisões brasileiras foram transformadas em santuários, em que a polícia jamais pode entrar, mesmo que os presos estejam tocando fogo no prédio ou empalando seus desafetos.
É o que está ocorrendo em São Paulo com as mortes de policiais militares. O governador Geraldo Alckmin está sob fogo cerrado da imprensa e dos intelectuais universitários, que posam de especialistas em segurança pública, mas, em sua maioria, não passam de militantes da esquerda engajados na candidatura de Fernando Haddad. Na quinta-feira, 25, Alckmin disse à imprensa que seu governo “não vai retroagir um milímetro” diante da escalada de violência contra os policiais e declarou: “É ir pra cima de criminoso. Polícia nas ruas e criminoso na cadeia”. Essa fala do governador foi tratada como uma espécie de blasfêmia. A imprensa se apressou a ouvir os chamados “especialistas”, fingindo ignorar que todos eles são militantes ou simpatizantes da esquerda e, portanto, lutam ou torcem pela vitória de Haddad. Uma dirigente do Instituto Sou da Paz, ONG fundada na Faculdade de Direito da USP, fez a seguinte afirmação: “Precisamos de uma declaração [do governador] que diga explicitamente que não é matando que a polícia vai conter essa onda”. Ou seja, para ela não tem a menor importância a morte de 88 policiais — o importante é acusar a polícia da autoria de todos os demais homicídios.
Em defesa do PCC
Outra intervenção sobre a segurança pública em São Paulo que beira o escárnio é o artigo “Vamos falar de segurança?”, do correspondente da “Folha de S. Paulo” em Nova York, Raul Juste Lores. O jornalista começa falando do bárbaro assassinato de uma menina de 15 anos em Higienópolis por causa de um celular e aproveita para criticar o governo paulista: “Os tucanos, que estão há 20 anos no poder, têm muito a explicar sobre Polícia Civil. Queda de homicídios se comemora, mas todos os outros crimes continuam nas alturas. A última frase de Alckmin, reaproveitada pelo assassino da garota de Higienópolis, sobre ‘quem não reagiu, está vivo’, vai para a história do retrocesso paulista”. Notem que o jornalista acusa Alckmin de ser o mentor intelectual do crime, ainda que involuntário, e escarnece da menina assassinada ao compará-la com criminosos do PCC mortos pela polícia e aos quais a frase do governador se refere. Lores se esquece que foi o próprio jornal em que trabalha quem transformou a suposta reação das vítimas numa verdadeira justificativa para o latrocínio. Tanto que, na reportagem sobre a menina morta, a “Folha”, como sempre faz em matérias sobre latrocínio, gastou dois parágrafos para contrapor as falas do latrocida e do namorado da vítima sobre sua suposta reação. Só num país dominado pelo banditismo, inclusive o ideológico, é possível se discutir a sério a suposta “reação” de uma menina de 15 anos diante de três bandidos adultos armados. A simples menção à palavra “reação” num caso desses é uma grave ofensa à memória da vítima, além de servir de justificativa para a ação do criminoso.
Ainda mais grave é o artigo “Governo que produz crime, crime que produz governo: políticas estatais e políticas criminais na gestão do homicídio em São Paulo (1992-2011)”, que transforma a queda dos homicídios em São Paulo em mérito do PCC (Primeiro Comando da Capital). O artigo, publicado no último número da prestigiosa “Revista Brasileira de Segurança Pública”, é de autoria do sociólogo Gabriel de Santis Feltran, professor da Universidade Federal de São Carlos e doutor em ciências sociais pela Unicamp, com estágio doutoral na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. Ao descrever os ataques de maio de 2006 na capital paulista, atribuídos ao PCC, o sociólogo diz que “policiais foram mortos mesmo à paisana”. Mas quando se trata da ação da polícia, as mortes viram “assassinatos”. Confiram: “O número de ‘suspeitos’ assassinados crescia satisfatoriamente. A polícia militar matou uma única pessoa no dia 12, antes do início dos ataques; assassinou 18 no dia seguinte; mais 42 no dia 14; e mais 37 no dia 15 de maio. As polícias tinham tido 40 baixas, mas ganhavam a ‘guerra’. Com 97 ‘suspeitos’ abatidos em três dias, anunciou-se que tudo estava de novo ‘sob controle’.” Reparem que o pesquisador não tem a menor dúvida de que, em nenhum caso, houve reação dos bandidos: todos foram “assassinados” pela polícia. Já os policiais não foram “assassinados”: são reduzidos a “baixas” e “mortos”.
A “Revista Brasileira de Segurança Pública” é editada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e tem o apoio do Ministério da Justiça. Imaginem se fosse o contrário: uma revista científica patrocinada pelo governo de São Paulo com um artigo sobre o Bolsa-Família que tivesse o seguinte título: “Governo que produz populismo, populismo que produz governo”? Sem dúvida, o PT jamais aceitaria a crítica e acusaria os tucanos de manipular a ciência para fins políticos. Já o PSDB se deixa acuar por ideólogos de esquerda travestidos de cientistas independentes e, apegando-se a um discurso meramente administrativo, deixa que o PT monopolize o discurso social. No Rio de Janeiro, os peemedebistas Sergio Cabral e Eduardo Paes, aliados do PT, tomam medidas muito mais duras do que o governo de São Paulo, mas nunca são criticados pelos acadêmicos. O prefeito Paes promete internar à força todos os viciados em crack. E o governador Cabral chegou a tratar médicos como presidiários, colocando chips de vigilância em seus jalecos. Os intelectuais universitários não se levantam contra essas medidas. Estão empenhados em proteger os viciados e bandidos de São Paulo. E os tucanos — por absoluta falta de um discurso alternativo em relação a esse dos petistas — calam-se também, num silêncio cúmplice.
http://www.jornalopcao.com.br/posts/reportagens/o-silencio-dos-cumplices
sábado, 3 de novembro de 2012
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
A liberdade como parteira da tirania
Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 2 de abril de 2007
No livro esplêndido que publicou sob o título "Roads to Modernity: The British, French and American Enlightenments" (New York, Vintage Books, 2005), Gertrude Himmelfarb mostrou que o iluminismo inglês, tão influente sobre a Revolução Americana, não foi um movimento simples e unilinear, mas um conflito insanável entre duas correntes de pensamento, uma nascida com John Locke (1632-1704), Bernard Mandeville (1670-1733) e Jeremy Bentham (1748-1832), a outra com Anthony Ashley Cooper, conde de Shaftesbury (1671-1713), Joseph Butler, bispo de Durham (1692-1752), Francis Hutcheson (1694-1746), Thomas Reid (1710-1796), George Berkeley (1685-1753), Adam Smith (1723-1790) e Edmund Burke (1729-1797). O filósofo David Hume (1711-1776) e o historiador Edward Gibbon (1737-1794) ficaram em cima do muro. A primeira das duas correntes teve repercussão mais espetacular no mundo em geral, mas a segunda foi mais determinante na prática política anglo-americana. A primeira, através do materialismo do século XIX, desembocaria em Ayn Rand; a segunda nos pais intelectuais do atual movimento conservador americano, Russel Kirk e Irving Kristol, este casado com a própria Himmelfarb.
A diferença entre as duas filosofias começa numa questão de teoria do conhecimento e desemboca em concepções opostas e irredutíveis da sociedade política. Vale a pena estudar o caso, pois essa divergência – e não a mera oposição entre intervencionismo estatal e livre mercado – marca hoje algumas das mais decisivas fronteiras entre as forças que disputam o poder nos EUA e no mundo.
Segundo Locke, a mente humana, ao nascer, é uma folha em branco. Todos os conteúdos lhe vêm de fora, através das impressões sensíveis. Sendo assim, as idéias morais não podem aparecer nela senão como resultado da acumulação de estímulos sensoriais positivos e negativos que se condensam em preferências e repulsas através das sensações de prazer e dor.
Para Shaftesbury, Hutcheson, Reid e sua prole intelectual, as sensações de prazer e dor, por si, não têm nenhum significado moral. Por mais que se somassem, não ensinariam ninguém a distinguir entre o bem e o mal, só entre o interesse próprio e o alheio. O introjeção das regras da moralidade seria impossível se o ser humano não tivesse um órgão específico para apreendê-las. Há um instinto do bem e do mal, que pode ser aperfeiçoado (ou pervertido) pelo ensino e prática mas é natural e inato em todo ser humano. Os filósofos dessa escola variam muito ao conceituar esse instinto, mas são unânimes em proclamar que ele está por trás da universal tendência humana para a vida em sociedade, a qual seria impossível se baseada só no interesse próprio e sem a presença de sentimentos básicos como a benevolência, a caridade e o amor ao próximo. O ser humano, em suma, não pode ser reduzido a um bichinho colecionador de impressões: a capacidade para um tipo de conhecimento que transcende a mera natureza corporal tem de estar presente nele desde o início, ou o salto da sensorialidade para a moralidade é inviável.
Um ponto que Himmelfarb não menciona, mas que é importante para a compreensão do assunto, é o seguinte: embora nenhuma influência escolástica seja visível nas obras desses filósofos, e embora eles não fossem religiosos de maneira alguma (com exceção de Butler e Berkeley), não é possível deixar de perceber a perfeita concordância entre a sua noção do instinto moral e o conceito escolástico da sindérese, a capacidade inata do ser humano para apreender os princípios da moralidade.
Dessa divergência radical quanto à origem do conhecimento seguem-se duas concepções opostas da vida em sociedade. O pensamento da escola lockeana encontrou sua expressão mais popular na "Fábula das Abelhas" de Bernard de Mandeville, narrativa satírica publicada originalmente em 1705 como "A Colméia Resmungona, ou os Patifes Tornados Honestos" e em 1714 na versão definitiva com o seu título atual e o subtítulo "Vícios Privados, Benefícios Públicos". O sentido da historieta é que, cada indivíduo cuidando apenas do seu interesse próprio, tudo se ajeita espontaneamente para o benefício de todos; ao passo que o esforço para ser bom e virtuoso coloca o homem em oposição ao interesse geral e leva à destruição da sociedade. O tema reapareceu mil vezes na literatura, no cinema e no teatro. Uma de suas versões mais célebres é o filme "Nazarín" (1958) do espanhol Luís Buñuel, um anarquista professo. É a história de um monge piedoso que faz o melhor que pode para praticar as virtudes evangélicas e só consegue, involuntariamente, trazer dano a todos em torno. Não é preciso dizer que tanto Mandeville quanto Buñuel deformam caricaturalmente a noção das virtudes, isolando as ativas das cognitivas, especialmente a "prudência" (capacidade racional de distinguir o bem verdadeiro do aparente). Os volumosos romances de Ayn Rand não são senão a transposição afirmativa da sátira de Mandeville, com seus heróis egoístas gerando mais benefícios para a coletividade do que todos os sacrifícios dos virtuosos.
A "Fábula" suscitou uma série infindável de reações hostis dos shaftesburianos (até Gibbon, um anticristão notório, a achou ofensiva demais), mas não se pode negar que ela os ajudou a definir sua própria concepção da sociedade em oposição à de Locke e Mandeville. Enquanto esta enfatizava a liberdade, julgando que só a livre concorrência dos interesses individuais produziria o bem coletivo, eles entendiam que a liberdade não era um princípio autofundante, mas o simples resultado das virtudes básicas que fundamentavam a vida em sociedade. O homem era levado a respeitar a liberdade do próximo pela sua benevolência, generosidade e tolerância, e não pelo mero interesse egoísta de preservar a sua própria liberdade. Esvaziada dessas virtudes, a liberdade se arruína a si mesma e se transmuta em prepotência caótica.
Tanto a tradição política britânica quanto a Revolução Americana imbuíram-se profundamente desse ensinamento, enquanto Locke exercia mais influência na França, sobretudo através de Voltaire. A idéia da virtude como base da organização política e fundamento teórico-prático da liberdade acaba vinculando as concepções da moderna democracia anglo-americana, mas principalmente a americana, a uma tradição de pensamento político e filosófico que remonta a Platão e Aristóteles e que está em perfeita harmonia com as doutrinas dos escolásticos. Ao desembarcar na América pela primeira vez em 1920, para dedicar-se ao estudo do constitucionalismo americano, Eric Voegelin notou que ali a filosofia de Platão e Aristóteles ainda era uma presença viva nas discussões políticas e jurídicas, enquanto o pensamento franco-alemão da época tinha se afastado infinitamente desse legado. Mais recentemente, a continuidade do pensamento político tradicional nas doutrinas dos Founding Fathers e na vida política americana em geral foi demonstrada exaustivamente por Ellis Sandoz em duas obras notáveis: "A Government of Laws" (Louisiana State University Press, 1990) e "Republicanism, Religion and the Soul of America" (Columbia and London, University of Missouri Press, 2006). Para essa tradição, a política é uma subdivisão da ética assim como a conduta do homem em sociedade é uma extensão das virtudes morais básicas.
Quem leu meus últimos artigos há de recordar que a liberdade é um mero preceito formal, sem conteúdo identificável a não ser mediante a enumeração dos seus limites. As virtudes, ao contrário, são princípios substantivos, que contêm na sua própria definição o desenho explícito dos limites de cada qual, bem como o perfil de suas relações com as demais virtudes. A liberdade baseada nas virtudes e emoldurada por elas não necessita de uma definição precisa para tornar-se numa prática concreta de todos os dias. Erigida ela própria em princípio, como aconteceu na França, o resultado é a tirania nos "amigos da liberdade" contra seus supostos "inimigos". A diferença entre uma filosofia política fundada no conhecimento substantivo da natureza humana e uma baseada em preceitos formais imantados de atrativos retóricos já se mostra aí com toda imensidão das suas conseqüências práticas. Quando o conde de Shaftesbury disse pela primeira vez que o amável e moderado John Locke era ainda mais perigoso do que o cínico "linha dura" Thomas Hobbes, todos acharam que era um exagero. Quase um século depois, os acontecimentos na França mostraram que a liberdade abstrata podia mesmo ser ainda mais tirânica do que a monarquia absoluta.
Pouco importa, é claro, que cada participante do debate público se nomeie a si próprio como "liberal" ou "conservador"; o que interessa é saber a posição de cada um no confronto entre o substantivismo tradicional e o formalismo moderno. Do ponto de vista da economia, a diferença é mínima, pois ambos defendem a economia de mercado. A diferença aparece é em tudo o mais. Ora, desde que a influência de Lukács, da Escola de Franckfurt e de Antônio Gramsci adquiriu predomínio na formulação estratégica do movimento esquerdista internacional, foi justamente esse "tudo o mais" que veio para o centro da luta política, enquanto a socialização dos meios de produção era deixada para o dia de são nunca. Isso aconteceu, porque, de um lado, o fracasso econômico do socialismo se tornou demasiado evidente para que mesmo os esquerdistas mais fanáticos pudessem negá-lo; e, de outro lado, o sucesso cultural do esquerdismo era garantido pela própria expansão capitalista, que, abrindo a mais e mais pessoas a oportunidade de acesso ao ensino superior e à participação na política, fazia crescer ilimitadamente a classe revolucionária por excelência, isto é, a "intelectualidade", no sentido elástico e não-qualitativo que Antônio Gramsci dá ao termo. É justamente essa imensa transformação da esquerda mundial que, hoje, obriga os seus opositores a tomar posição antes em função da guerra cultural do que das questões econômicas. E aí o formalismo liberal, por mais que se proclame inimigo do comunismo, se torna um instrumento da estratégia esquerdista através do apoio que presta a slogans e bandeiras que lhe pareçam "ampliar a democracia" por meio do aumento das liberdades e direitos concedidos a cada novo grupo militante e reivindicante. Como essa expansão dos direitos se faz através de novas legislações, e a aplicação delas exige a criação de novos órgãos jurídico-administrativos especializados, o resultado é a intervenção cada vez maior do Estado na vida dos cidadãos. Uma vez mais, a liberdade vazia é a parteira da ditadura.
Esse processo, coexistindo às vezes com a retração do intervencionismo estatal em economia, pode levar a algumas situações aparentemente paradoxais. A administração Reagan, por exemplo, restaurou o sentido dos valores tradicionais na política e acertou um golpe mortal no coração do movimento comunista. Para fazê-lo, no entanto, aumentou barbaramente o orçamento estatal, que sua plataforma "classic liberal" prometia diminuir. Já o governo Clinton, que foi recordista de privatizações, campeão do "enxugamento do Estado", impôs ao mesmo tempo, no campo jurídico, moral e cultural, inúmeras novidades "politicamente corretas" que ampliaram formidavelmente a margem de intervenção do Estado na vida privada (escrevi sobre isso em "O Jardim das Aflições" no instante mesmo em que a coisa estava acontecendo). Incentivando o comércio com a China, sob o pretexto de que a liberalização da economia traria automaticamente a da política (típico raciocínio liberal-formalista), Clinton ajudou ainda a consolidar a ditadura dos generais de Pequim, aos quais fornecia, ao mesmo tempo, tecnologia atômica suficiente para varrer da face da terra a população americana.
O pensamento formalista, não podendo afirmar valores substantivos, apega-se ao ícone da "liberdade", mas, sem o amparo nas virtudes, é a liberdade de mercado que se torna o modelo de todas as demais liberdades. Daí a tendência a sacrificar em prol do mercado os próprios valores que o possibilitam, na esperança louca de que ele volte a criá-los por mágica. Deste ponto de vista, Clinton estava muito mais próximo dos ideais liberais do que Reagan.
Há também um segundo aspecto que torna ainda mais inconciliável a divergência entre aqueles que chamei "conservadores" e "liberais" (reconhecendo a ampla margem de malentendidos que essa terminologia pode evocar). Ao abordá-lo, vou parar longe das análises de Himmelfarb.
Embora os iluministas da linhagem de Shaftesbury não fossem nada religiosos, todos eles reconheciam a importância da religião para a preservação dos sentimentos morais básicos. Isso já nos dá um indício de que a divergência acima mencionada não diz respeito à "religião" no sentido dogmático-institucional (como desejariam fazer crer os materialistas, seja liberais, seja de esquerda), mas a algo de bem mais vital e profundo.
A crença num mundo transcendente à experiência usual humana e num princípio de justiça divina imperando sobre o cosmos é um dos dados mais universais da história das culturas e sociedades. Do homem de Neandertal até hoje, não encontramos um único exemplo de "sociedade laica", isto é, construída inteiramente à margem dessa crença. Um fenômeno tão generalizado não pode ser explicado em função de estereótipos pejorativos como "a necessidade de crer", "os interesses da classe sacerdotal", etc. Sem algum fundamento na própria experiência, a confiança no que está para além da experiência seria um elemento tão despropositado e psicótico que todas as sociedades inspiradas nela – isto é, todas as sociedades tout court –, estariam condenadas ao caos e ao fracasso em prazo brevíssimo.
Descontando experiências espirituais mais sutis e complexas, existe uma que se repete em todas as épocas e culturas e que basta, por si, para mostrar a razoabilidade da crença no regulamento transcendente da existência. São as narrativas apresentadas por pessoas que estiveram clinicamente mortas durante horas ou dias, e que retornam ao mundo dos vivos trazendo relatos notavelmente similares entre si: todos esses retornados do além tiveram um confronto com algum tipo de instância julgadora, na qual suas vidas eram pesadas e medidas, absolvidas ou condenadas. Um exemplo clássico é o mito de Er, narrado na "República" por Platão, que o obteve, parece, de um círculo pitagórico. Diante da pira mortuária, o pai de Er chora a perda do filho morto em batalha, quando de repente o soldado se ergue das chamas e narra o seu encontro, no além, com a justiça cósmica.
Em todas as culturas aparecem histórias similares, e elas são naturalmente um poderoso suporte racional à crença na justiça transcendente. Mesmo em época recente, livros como o de Morris Rawlings, "Beyond Death's Door" (New York, Thomas Nelson, 1978) e o de Raymond Moody, "Life After Life" (New York, Bantam, 1979). deram o que pensar a todos os que aí notaram a concordância das centenas de relatos de pacientes clinicamente mortos que voltaram à vida. O segundo desses livros chegou a vender treze milhões de exemplares, mostrando que o interesse pelo conhecimento da "vida além da vida" é uma constante do espírito humano. Não há nada de irracional em dar fé a esses relatos, porque os moribundos não têm interesses a defender e entre as testemunhas ouvidas por esses e outros autores não havia um só reconhecidamente desequilibrado. A objeção que os materialistas fazem é que os fatos aí narrados não são experiências repetíveis à vontade em laboratório. São testemunhos individuais, inacessíveis ao controle da comunidade científica. Essa objeção não invalida as narrativas, é claro, mas as impede de receber o aval do establishment acadêmico. Ao mesmo tempo, no entanto, os testemunhos individuais continuam válidos em História e jurisprudência, assim como na orientação das vidas pessoais e nas decisões políticas. Os antigos consideravam que um conhecimento era tanto mais valioso e digno de respeito quanto mais versasse sobre assuntos vitais e fosse, por isso mesmo, mais difícil de obter. O formalismo moderno, que subscreve as precauções metodológicas da ciência materialista, acredita, ao contrário, que um conhecimento é tanto mais precioso e investido de autoridade quanto mais fácil de conferir e mais acessível, portanto, ao controle da coletividade. É um conceito, evidentemente, mercadológico e retórico do conhecimento. A humanidade precisou decair muito para que verdades essenciais entrevistas ainda que nebulosamente por homens sábios, ou por testemunhas privilegiadas, fossem preteridas em favor de detalhes de segunda ordem comprovados por uma multidão de medíocres e imbecis. A confirmação pública é um luxo quase nunca acessível àquele que busca sinceramente o conhecimento. E fazer dela a fonte da certeza é simplesmente trocar o desejo de conhecimento pelo simples medo de errar, que é quase sempre, como dizia Hegel, puro medo de conhecer.
Muitos dos valores e princípios que orientaram a humanidade durante milênios e que, sem nenhum pressuposto religioso, ainda eram sustentados com tanta veemência pelo iluminismo inglês – incorporando-se, através dele, na tradição política americana –, foram obtidos por pessoas especiais em circunstâncias especiais. Não estão à mercê de qualquer grupo de estudantes entusiasmados com demonstrações de laboratório. Constituem um patrimônio de sutilezas tão difíceis de apreender quanto a forma interna das obras de arte superiores ou quanto as virtudes ocultas na alma de um santo discreto.
A verdadeira divergência entre o pensamento tradicional e o formalismo moderno é que o primeiro incorpora esse tesouro de sutilezas, mesmo sabendo que a prova delas depende de qualidades humanas raras exercidas em circunstâncias ainda mais raras, ao passo que o segundo exige a prosternação geral ante a autoridade de um "coletivo" acadêmico constituído da unanimidade dos cientistas médios. É por essa via que o formalismo liberal ajuda mais profundamente a militância esquerdista a assumir o poder no mundo. A autoridade do establishment científico é hoje um dos instrumentos mais eficazes de que a burocracia estatal lança mão para planejar e controlar a conduta das multidões. Estas não sabem, é claro, o quanto essa autoridade é limitada e pouco racional, já que baseada numa concepção protocolar e diminutiva da razão, assim como na credulidade cega das massas. Falarei mais sobre isso em artigos vindouros, mas desde já posso enunciar uma conclusão: aqueles que são capazes de uma análise crítica mais aprofundada do assunto têm a obrigação de entender que não há nada de científico em negar um relato só porque os fatos que ele transmite não podem ser repetidos, já que isto resultaria em impugnar todo conhecimento que temos da história humana. Eles têm, por isso, o dever estrito de compreender a tragédia do formalismo liberal, que ergue bem alto a cabeça temível da autoridade no instante mesmo em que promete afogá-la e dissolvê-la na "liberdade de mercado".
http://www.olavodecarvalho.org/semana/070402dc.html
O sucesso do fracasso
Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 27 de novembro
Todos os "movimentos sociais" atuantes no Brasil, sem exceção, bem como as entidades que os representam e as leis baseadas nas suas reivindicações, nasceram da seguinte maneira:
1. Com dez, vinte, trinta anos de antecedência, os intelectuais esquerdistas de maior peso discutem e elaboram os conceitos e a linguagem das novas idéias destinadas a revigorar e ampliar o movimento revolucionário mundial.
2. Em seguida essas propostas passam à alçada das grandes fundações bilionárias e organismos internacionais, onde o segundo escalão intelectual – técnicos, planejadores sociais, publicitários, ativistas -- lhes dá o formato operacional para transmutá-las em propostas concretas.
3. Essas propostas são então espalhadas pelo mundo por meio de uma infinidade de livros, artigos, conferências, filmes, espetáculos de teatro, sempre subsidiados pelas mesmas fontes, mas apresentados como iniciativas independentes, de modo a dar a impressão de que a mudança planejada provém de uma fatalidade histórica impessoal e não de uma ação organizada. Ao mesmo tempo, desencadeia-se um conjunto de operações preventivas destinadas a neutralizar, reprimir e, se necessário, criminalizar toda resistência.
4. Só então as propostas chegam aos países do Terceiro Mundo, por meio de ONGs e agentes pagos que as inoculam primeiro nos círculos de intelectuais mais ativos, que as retransmitem aos estudantes e à mídia, não raro apresentando-as como suas criações pessoais e originalíssimas, de modo que a multidão dos aderentes não tenha a mais mínima idéia da existência de um empreendimento internacional organizado por trás dos efeitos políticos que se seguem inexoravelmente.
5. A última etapa é a produção desses efeitos, por meio dos agentes políticos – militância organizada, agentes de influência, legisladores – que transformam as propostas em leis e instituições.
Na última etapa, as origens intelectuais das propostas, bem como sua base internacional de sustentação financeira e organizacional, já se tornaram praticamente invisíveis para a população em geral, de modo que toda a discussão a respeito, destinada a fazer com que a adoção das novas medidas pareça surgir do fluxo normal e espontâneo da vida democrática, se atenha às definições nominais e aos aspectos mais periféricos das questões respectivas, sem possibilidade de examinar seja o esquema de poder que articulou a seu belprazer a situação de debate, seja as implicações históricas de longo prazo que advirão das transformações pretendidas. Quando essas conseqüências se revelam catastróficas, a culpa pelo erro que as produziu já está tão disseminada pela sociedade que toda tentativa de rastrear e responsabilizar os autores das propostas iniciais, caso ainda ocorra a alguém a tentação de empreendê-la, começa a parecer rebuscada e artificiosa como uma "teoria da conspiração".
A primeira condição para a existência de um movimento conservador ou liberal é a formação de equipes de estudiosos qualificados para fazer esse rastreamento e expor aos olhos da multidão o processo inteiro da "transformação social", para que ela perca seu prestígio místico de fatalidade histórica ou vontade divina e possa ser discutida às claras como qualquer outro projeto de poder.
Infelizmente, as forças econômico-sociais cuja sobrevivência a longo prazo depende do sucesso de um movimento liberal-conservador – principalmente a classe empresarial que é a concorrente número um dos planejadores e burocratas iluminados – têm um horizonte de visão histórica muito restrito e dificilmente compreendem a necessidade de uma estratégia de longo prazo. Concentram-se na defesa dos seus interesses imediatos reais ou imaginários e, sem perceber, acabam colaborando com os planos mais vastos e gerais da esquerda, seja por meio de concessões conscientes que lhes parecem muito espertas na hora, seja por meio de resistências pontuais arbitrárias e inconexas que sempre podem ser absorvidas e neutralizadas no quadro maior da estratégia esquerdista, seja por meio da adaptação passiva, lenta e quase imperceptível à linguagem e à cosmovisão de seus inimigos.
O domínio do tempo histórico das transformações político-sociais tornou-se monopólio da elite esquerdista internacional. O mero fracasso econômico das propostas socialistas não diminui em nada o poder hipnótico que exercem sobre a multidão nem o controle hegemônico da esquerda sobre o processo histórico, porque esse fracasso é apenas um fato, e os fatos não se transformam por si em elementos de persuasão quando não integrados como símbolos num universo imaginário, isto é, quando não trabalhados dentro de um plano cultural abrangente e de longo prazo, precisamente o que falta por completo às forças liberal-conservadoras.
O próprio preconceito economicista que se apossou dessas forças, induzindo-as a esperar que a fraqueza econômica do socialismo se transmute automaticamente em fracasso político-cultural do movimento esquerdista, já mostra o quanto o imaginário liberal-conservador foi infectado e moldado pela cosmovisão esquerdista, hoje "onipresente e invisível" como a desejava Antonio Gramsci.
Desse preconceito, em simbiose com o imediatismo político, nasce o profundo desinteresse que os liberais e conservadores têm pelo debate interno de idéias na esquerda. Como o conteúdo desse debate lhes parece falso e alucinatório e por isso supremamente tedioso, não percebem que por trás dessa falsidade e alucinação há um método e uma estratégia. Nem muito menos que a falsidade louca de uma idéia jamais foi obstáculo ao seu sucesso político. Enquanto os liberais e conservadores discutem economia, criando esquemas saudáveis e racionais que jamais serão levados à prática, os esquerdistas, a salvo de qualquer fiscalização crítica da parte de seus adversários, inventam as mentiras e alucinações com que dominarão a consciência das multidões e conduzirão o processo histórico para onde bem entendam, com a facilidade com que um menino-pastor puxa um búfalo de uma tonelada pela argola do nariz.
Vou dar aqui um único exemplo de doutrina alucinatória que jamais vi despertar o interesse dos liberais e conservadores brasileiros e que por isso mesmo consegue praticamente dominar o ambiente universitário, cultural e midiático nacional, influenciando o curso dos acontecimentos e impondo derrotas humilhantes à racionalidade econômica liberal-conservadora.
Refiro-me à escola "desconstrucionista" de Jacques Derrida, Jean-François Lyotard, Paul de Man, Gianni Vattimo e outros, que torna inviável toda idéia de veracidade objetiva e instaura em seu lugar o primado da ficção militante.
Como em artigos vindouros pretendo abordar aqui vários fenômenos da política brasileira que jamais teriam podido produzir-se exceto num ambiente intelectual dominado por essa escola, a utilidade essencial de conhecê-la se tornará mais evidente nas próximas semanas.
Usei o termo "escola", mas os próprios desconstrucionistas o rejeitam. Também não aceitam que o desconstrucionismo seja definido como uma filosofia, um método de interpretação, um projeto acadêmico ou qualquer outra coisa. Não aceitam definição nenhuma, o que já coloca o recém-chegado na obrigação de escolher entre embarcar às cegas na aventura sem nome ou, ficando de fora, não poder criticá-la sem ser acusado de incompreensão leiga. À entrada do templo desconstrucionista, portanto, um cartaz em letras de fogo já anuncia: "Ame-o ou deixe-o." Mas deixá-lo significa excluir-se a si próprio da comunidade acadêmica e ser considerado um ignorante ou reacionário, um escravo do universo lingüístico pré-desconstrucionista e, portanto, um virtual objeto de desconstrução. Não há terceira alternativa entre desconstruir e ser desconstruído – e esta última hipótese não significa apenas ser objeto de análise corrosiva, mas de destruição social e profissional.
A desconstrução parte da premissa lingüística de Ferdinand de Saussure de que a língua é um sistema no qual o sentido de cada palavra é a diferença entre ela e todas as outras. O sacerdote supremo do desconstrucionismo, Jacques Derrida, joga essa premissa contra as pretensões científicas da própria lingüística, ao concluir daí que, se a língua é um sistema de diferenças entre signos, ela não tem qualquer referência a um "significado" externo. Tudo o que o ser humano diz, escreve ou pensa é apenas a exploração das possibilidades internas do sistema. Não tem nada a ver com "realidade", "fatos" etc. O universo inteiro ao alcance do pensamento humano é constituído de "textos" ou "discursos", mas, como não há nenhuma realidade externa pela qual esses discursos possam ser aferidos, não tem sentido falar de discursos "verdadeiros" ou "falsos". Não existe representação da realidade. Todo discurso é livre invenção de significados.
Obtida essa conclusão, Derrida interpreta-a em sentido nietzscheano, afirmando que, se o dircurso não é representação da realidade, é expressão da "vontade de poder". Mas isso não quer dizer que por trás do discurso exista um "eu" manifestando sua vontade de poder. A idéia de um eu estável e autoconsciente é ela própria uma representação da realidade. Como nenhuma representação da realidade pode funcionar, o eu também não existe: só o que existe é o ato de poder que cria uma ficção chamada "eu". Se a língua estava totalmente separada da realidade por ser apenas um sistema de diferenças, o desconstrucionista vai agora separá-la do próprio sujeito pensante, acrescentando à mera "différence" a "différance", com "a", termo criado por Derrida para designar o intervalo de tempo entre o sujeito como autor do discurso e o mesmo sujeito considerado enquanto assunto do discurso. Em português ele não precisaria inventar esse trocadilho medonho, pois aí existe a palavra "diferição", sinônima de "adiamento", que, por aquela mistura de pedantismo e ignorância, típica do meio acadêmico nacional, os tradutores brasileiros se recusam a usar, preferindo o neologismo francês para dar a impressão de que se trata de uma nuance sutilíssima. Qualquer que seja o caso, Derrida está falando simplesmente de uma diferição, de um lapso de tempo: o eu do qual você fala não é nunca o eu que está falando. Mas, se é assim, o eu como assunto do discurso não está nunca presente a si mesmo. Separado do objeto pela circularidade do sistema, o discurso está também separado do sujeito pela diferição, ou, se preferem, "différance" (como diria Dirty Harry: Cazzo!). Diga você o que disser, ou pense o que pensar, será sempre uma ausência falando de outra ausência.
Se o eu não existe e o objeto que ele pensa também não existe, só o que existe é o ato de poder que cria uma ficção chamada "eu" e outra ficção chamada "objeto". O motivo que produz a necessidade de criar essa ficção é o desejo de escapar da morte, da aniquilação. Mas a morte é inescapável, é a "realidade". Portanto a função de todos os discursos é negar a realidade e a sua tradução cognitiva, a verdade. Nisso consiste o poder, a genuína liberdade. O Evangelho (João, VIII:32) dizia que a liberdade nasce do conhecimento da verdade. Para Derrida e os desconstrucionistas em geral, a liberdade consiste em negar a verdade, afirmando, com isso, o próprio poder.
No início alguns marxistas ficaram alarmados com a nova filosofia, que, ao negar a realidade, punha em xeque toda pretensão de conhecer as leis objetivas do processo histórico. Mas Derrida logo conseguiu acalmá-los, mostrando que, se o desconstrucionismo era ruim para a teoria marxista, era bom para o movimento revolucionário, dando-lhe não só os meios de corroer toda a cultura ocidental por meio da negação do significado em geral, mas também de afirmar o seu próprio poder ilimitadamente: livre das coerções da realidade objetiva, imune portanto a qualquer cobrança na esfera dos argumentos racionais, ele poderia impor sua vontade por todos os meios ficcionais possíveis, enquanto seus adversários, travados por escrúpulos de realidade e lógica, observariam inermes a sua ascensão irresistível.
Todo o empreendimento desconstrucionista é, de fato, uma resposta prática ao apelo formulado pelo marxista húngaro Georg Lukacs, ao perceber que o grande obstáculo ao comunismo não era o poder econômico da burguesia, mas dois milênios de civilização judaico-cristã. "Quem nos livrará da civilização ocidental?", perguntava angustiado Lukacs. Quem logo se apresentou como primeirão da fila foi o nazista Martin Heidegger. Destruição – Destruktion – é a palavra-chave de tudo o que ele fez na vida: desde escrever e depois desescrever Ser e Tempo até aplaudir a ascensão do Führer e recusar-se a esclarecer o assunto depois da II Guerra, deixando seus fãs numa dúvida perturbadora que dava à sua filosofia ainda mais sex appeal. A essência da filosofia de Martin Heidegger consiste em abolir o Logos, o verbo divino que faz a ponte entre o pensamento humano e a realidade externa, e colocar em seu lugar a "vontade de poder" do Führer. Heidegger foi o primeiro herói da guerra contra o "logocentrismo". A convergência entre seus esforços filosóficos e os objetivos de Georg Lukacs foi o pacto Ribbentropp-Molotov da filosofia. Mas Heidegger, afinal, não criou como substitutivo para a civilização judaico-cristã nada além da filosofia de Martin Heidegger, que só serve para quem a entende. Derrida et caterva transmutaram essa filosofia num projeto acadêmico indefinidamente subsidiável e num movimento político do qual milhões podem participar sem entender coisa nenhuma do que estão fazendo. Tinha de ser mesmo um sucesso triunfal.
Ainda mais triunfal foi essa ascensão no Brasil, onde o temor reverencial à moda acadêmica francesa, o prestígio sacral do discurso incompreensível e a síntese de pedantismo e ignorância que constitui a forma mentis inconfundível da nossa classe universitária erigiram o desconstrucionismo num culto fanático que não apenas repele contestações mas nem mesmo admite a existência delas.
Um traço peculiar do desconstrucionismo, que no Brasil foi acentuado até suas últimas conseqüências, é que, ao negar a existência da verdade, ele não abdica de atacar a "mentira". Quando ele o faz perante um público que desconhece a nuance específica que o termo tem para um desconstrucionista, a platéia acredita que ele está defendendo a "verdade". Mas, no círculo interno, sabe-se que não existe verdade. "Mentira", pois, é apenas aquilo que se opõe à ficção preferida do grupo desconstrucionista, à sua "vontade de poder". Inversa e complementarmente, o termo "verdade", ao ser usado pelo desconstrucionista perante os leigos, significará para estes uma representação adequada da realidade comprovável, mas, entre os iniciados, sabe-se que isto não existe e que o emprego do termo se destina apenas a explorar as ilusões do público para induzi-lo a submeter-se às ilusões e desejos do grupo ativista. Nesse sentido, pode-se e deve-se estigmatizar como "mentira" os fatos mais amplamente comprovados e impor como "verdade" qualquer mentirinha boba conscientemente inventada para vitaminar a "vontade de poder" do movimento.
Objetivamente falando, o valor inteiro do projeto desconstrucionista depende da premissa saussuriana de que o sentido de uma palavra é apenas a diferença entre ela e todas as outras. Essa premissa é falsa. Suponham a frase: "Jacques Derrida morreu." A diferença entre Jacques Derrida e todos os outros seres dotados de nomes humanos é a mesma quer ele esteja vivo ou morto. A diferença entre morrer e estar vivo, por sua vez, é a mesma quer você esteja vivo ou morto. Mas, se Jacques Derrida morreu, a diferença entre ele e todos os outros continua intacta, enquanto ele, o indivíduo Jacques Derrida, não será mais visto por aí dando palestras e encantando milhões de idiotas. Ou a expressão "Jacques Derrida" significa algo mais do que a diferença entre ela e todas as outras, ou tabnto faz Jacques Derrida estar morto ou vivo. Do mesmo modo, uma frase como "Não há mais comida" é a mesma – e suas diferenças em relação a todas as outras são as mesmas -- quer você a diga como puro exemplo verbal ou como expressão de um estado de fato. A diferença neste último caso está na presença ou ausência física de comida, que não é a mesma coisa que a "ausência do objeto" na mera formulação saussuriana do significado como diferença entre uma frase e todas as demais. Esta diferença é a mesma com comida ou sem comida. A falta de comida não é bem isso.
Reparando em detalhes como esse, o próprio Jacques Derrida foi obrigado a moderar as pretensões do seu método, reconhecendo a existência de "indesconstruíveis" e, no fim, admitindo que entre eles estava – que raiva, pô! – o próprio Logos. Desconstrua você o que desconstruir, estará sempre, pelo simples fato de pensar e falar, dentro de um quadro de referências balizado pelo Verbo Divino ou por seus reflexos na tradição metafísica. No fim das contas, a Destruktion, como o projeto nazista, pode destruir muitas coisas em torno, mas se destrói a si mesma – e àqueles que embarcaram na sua proposta – em escala infinitamente maior. Proclamando que a liberdade consiste em negar a verdade, o desconstrucionista só exerce sua liberdade de viver da ficção e sentir um gostinho de poder até o momento em que a morte substitui todas as ficções por uma verdade "indesconstruível" e a vontade de poder pela impotência definitiva dos cadáveres. Expressão modernizada da revolta gnóstica contra a estrutura da realidade, o projeto desconstrucionista está destinado ao fracasso, mas o fracasso cognitivo pode ser um sucesso político-social, na medida em que arraste na sua voragem milhões de idiotas hipnotizados pela atração do abismo.
http://www.olavodecarvalho.org/semana/061127dc.html
O método Derrida
Olavo de Carvalho
Jornal do Brasil, 12 de janeiro de 2006
Jacques Derrida era judeu. Diferia dos demais pensadores judeus por duas peculiaridades: (1) seu principal guru era militante nazista; (2) seu principal discípulo também. Quando ele usou de todos os artifícios desconstrucionistas para diluir o duplo vexame, transmutando Martin Heidegger e Paul De Man em vítimas do mundo mau e seus acusadores em guardas de campo de concentração, talvez soubesse que tinha encontrado finalmente a serventia ideal do seu famoso método.
O pressuposto do desconstrucionismo é a lingüistica de Ferdinand de Saussure. Enquanto não se conseguiu descrever a língua como estrutura, como objeto, isolando-a das condições vivas da sua utilização, não foi possível inutilizá-la. A isso dedicou-se o autor da Grammatologie , movido pela ambição de provar que todo mundo antes dele estava enganado, que todos os discursos eram autocontraditórios, que não significavam coisa nenhuma e que, no fim das contas, só sobrava a “vontade de poder”.
As análises que ele faz são perfeitas, desde que você entenda que se referem à “língua” de Saussure, não à de Platão, de Dante ou de qualquer um de nós. Aquela não existe: é uma estrutura hipotética, um sistema de regras. Ler nela é impossível, porque aí o sentido de cada palavra se torna apenas a diferença entre ela e as demais, e não algum objeto do mundo, o que implica que ninguém compreenderia uma única palavra se não conhecesse todas as outras. Se fosse assim com as línguas de verdade, o primeiro bebê ainda estaria tentando aprender a primeira palavra.
Felizmente, a “língua” de Saussure não foi feita para ser falada ou escrita, apenas teorizada. Quando você compra um salame no supermercado, o que vem no pacote é um composto de carne, gordura e tripas, não apenas a diferença entre o salame e tudo o mais. Ninguém jamais comeu uma diferença. No mundo real, você pode perfeitamente compreender uma palavra sem conhecer qualquer outra do mesmo idioma. Basta alguém dizer a palavra e apontar o objeto correspondente. A língua não é um sistema: é um aglomerado fragmentário de procedimentos que só é completado pelo sistema do mundo, pela realidade em torno, na qual ela é uma forma de instalação humana, articulada por sua vez com muitas outras. Retirada desse conjunto, considerada “em si mesma”, ela se torna um sistema, mas por isso mesmo não pode mais funcionar: sem os objetos (e aliás também sem o sujeito), sobram rombos demais num tecido feito de meras diferenças; diga você o que disser, o resultado será incongruente.
O empreendimento de Derrida consistiu em traduzir mentalmente todos os livros para a língua saussuriana e, lendo-os, concluir que ficavam perfeitamente absurdos, coisa que até eu que sou mais trouxa teria lhe avisado antes se ele me perguntasse. Feito isso, porém, ele saiu vendendo a conclusão como se valesse para tudo o que os homens disseram em qualquer língua desde os tempos de Cro-Magnon até o advento de Jacques Derrida. Os pedantes que acreditaram nele acabaram falando numa língua que tem mesmo as propriedades daquela que ele descreve: está cheia de contradições e não significa nada. Quando querem convencer alguém de alguma coisa, já não podem portanto nem mesmo tentar ser lógicos e conseqüentes. Gritam frases soltas, barbaramente contraditórias, e fazem uma expressão desvairada, com olhos de fogo, mostrando como você é mau e perverso se não fizer o que eles querem. A filosofia de Derrida não é uma filosofia: é uma pegadinha. A vantagem é que aqueles que caem nela aprendem a pegar os outros e a viver disso. Você não tem idéia de quanto eles conseguem obter por esse meio em subsídios do governo, direitos especiais e proteção da polícia para qualquer besteira que inventem. Realizando assim a primazia da vontade de poder sobre o pensamento racional, provam que Jacques Derrida era mesmo o gostosão. Qualquer semelhança com o método nazista é deplorável coincidência, da qual Derrida está tão inocente quanto Heidegger, De Man, Nietzsche e talvez até o Führer em pessoa.
http://www.olavodecarvalho.org/semana/060112jb.htm
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
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