segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Sonhando com a "teoria final"
Escrito por Olavo de Carvalho | 03 Dezembro 2012
Artigos - Cultura
A prova lógica perfeita independe das paixões e veleidades humanas. Independe de testemunhas. Independe até da existência de seres humanos. Impõe-se com a impessoalidade dos terremotos e dos ciclos planetários. Mas terremotos e ciclos planetários são, na escala do universo, acontecimentos limitados. Infinitamente acima deles, a prova lógica perfeita impõe-se com a autoridade absoluta da vontade divina.
Aquele que dispõe de uma prova lógica perfeita pode aceitar a discordância como um fato, não como um direito. Em última instância, explicará toda divergência como fruto da ignorância ou da perversão e, mais dia menos dia, desejará suprimi-la pela doutrinação ou pela força.
Felizmente, provas lógicas perfeitas só existem no domínio puramente ideal, não dizem respeito às realidades do mundo. Mesmo a ciência mais exata admite que o seu reino não é o das verdades definitivas, mas o das probabilidades e incertezas. Isso não impede, no entanto, que muitos cientistas continuem sonhando com a “teoria final”: a explicação unificada e cabal da natureza e de tudo quanto existe dentro dela – o que inclui necessariamente o ser humano com todos os seus pensamentos, desejos, emoções, crenças e valores.
Os devotos desse ideal, quando falam dele, apressam-se em reconhecer que “ainda estamos longe” de alcançá-lo. A aparente modéstia dessa confissão esconde a fé inabalável de que ele será alcançado. Inclui também o esquecimento de que, no passado, houve quem acreditasse piamente já tê-lo alcançado, já possuir ao menos em linhas gerais os princípios fundantes da natureza inteira, e estar capacitado, portanto, a aplicá-los a todos os domínios do conhecimento e da ação, modelando por eles a sociedade, as leis, a cultura, a educação e a mente humana. Em nenhum desses casos a fundamentação chegava ao nível de uma prova lógica perfeita. Incluía sempre alguns pressupostos não provados, às vezes incongruentes ou incompreensíveis. Mas, em todo caso, comparada com o restante das opiniões em circulação, a “teoria geral” parecia ser o que mais se aproximava de uma prova lógica perfeita, tornando difícil, aos seus porta-vozes, resistir à tentação de arrogar-se a autoridade ilimitada de um mandamento divino, sufocando toda oposição como irracional e anticientífica.
Isso aconteceu pelo menos três vezes na História. A primeira foi quando Sir Isaac Newton, tendo obtido sucesso em deduzir de princípios mecânicos alguns fenômenos da natureza, fez votos de que em breve se pudesse explicar pelos mesmos princípios todos os demais fenômenos. O desenvolvimento posterior das ciências mostrou que o sonho era impossível. Mas, no século XVIII, à medida que o prestígio de Sir Isaac se espalhava pela Europa, esse sonho foi tomado como realidade consumada e se consagrou em doutrina obrigatória sob o nome de “mecanicismo”. Logo o mecanicismo transfigurou-se em projeto de reforma social e começou a cortar cabeças – inclusive as de alguns mecanicistas insatisfeitos com as consequências políticas da doutrina. (Anos atrás escrevi umas linhas sobre os danos que o mecanicismo trouxe ao mundo, e fui acusado, numa lista de discussões entre professores de lógica, de querer “refutar Newton” – o que sugere que, ao menos no Brasil, é possível ser professor de lógica sem ter aprendido a ler.)
A segunda vez foi quando a doutrina evolucionista de Charles Darwin, mal publicada, e embora não fosse nem mesmo uma teoria de tudo e sim apenas uma explicação abrangente da variedade dos seres vivos, já foi aplaudida como chave geral da história humana e fundamento científico tanto da guerra de raças quanto da luta de classes. Adotada com ligeiras modificações pelos dois regimes totalitários que disputavam o poder no mundo no início do século XX, serviu de fundamento ideológico à matança organizada de uns duzentos milhões de seres humanos.
A terceira, que se entremescla à segunda, foi a proclamação do marxismo como suprema explicação científica da evolução histórica e, no dizer de Jean-Paul Sartre, “a filosofia insuperável do nosso tempo”. Deu no que deu.
Nos três casos, é inócua a tentativa piedosa de cavar um fosso intransponível entre o núcleo “puramente científico” dessas teorias e os seus efeitos histórico-sociais maléficos, atribuindo estes últimos exclusivamente à distorção ideológica superveniente e à contaminação da “pseudociência”. Teorias científicas não descem prontas do céu das idéias puras. Todas trazem no fundo algum elemento ideológico, por discreto e indesejado que seja, o qual cedo ou tarde acaba por subir à superfície da História, como as paixões rejeitadas sobem do inconsciente e acabam por engolfar a personalidade.
Newton não concebeu sua teoria gravitacional só para explicar determinados fatos da natureza – embora ela ainda seja ensinada assim à população ginasiana -, mas como parte de um projeto abrangente de destruir o cristianismo trinitário e substituí-lo por uma religião da “unidade absoluta” de inspiração esotérica. É preciso ser muito sonso para não notar aí o alcance da ambição totalitária subjacente.
Darwin e Marx foram bem mais explícitos quanto às consequências previsíveis das suas teorias: o primeiro aceitou o genocídio como um fato normal da natureza, o segundo como um instrumento indispensável para a instauração do paraíso socialista.
A deleitação utópica com que tantos cientistas sonham com a “teoria final” e se esmeram em aprimorar os instrumentos lógicos para fundamentá-la não parece, nesse sentido, ser um prenúncio de dias melhores para a espécie humana.
Publicado no Diário do Comércio.
http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/13644-sonhando-com-a-qteoria-finalq.html
"The people will believe what the media tells them they believe."
George Orwell
http://howtheworldreallyworks.info/domingo, 2 de dezembro de 2012
Girard: A revolução
Olavo de CarvalhoBravo!,
Junho de 1998
O nome de René Girard não é desconhecido nesta parte do mundo. De vez em quando aparece citado, de passagem, em alguma tese universitária. Seu livro mais famoso, La Violence et le Sacré (1972), foi traduzido pela Vozes e a edição está esgotada.
O que espanta não é que após tal sucesso nenhum editor brasileiro se interessasse em publicar Le Bouc Émissaire (1982), La Route Antique des Hommes Pervers (1985) e outras obras memoráveis do mesmo autor. O fenômeno pode refletir apenas a intermitência do stop and go, típica das economias subdesenvolvidas. O que espanta é a capacidade que o nosso meio universitário teve de absorver em discreto silêncio algo de um pensamento tão explosivo, continuando em seguida confortavelmente instalado nas suas convicções dominantes, como se ele não as houvesse abalado em nada.
Entre a insensibilidade pétrea e o fingimento puro e simples, algum fator desconhecido parece ter imunizado essa gente contra qualquer advertência de que o leão escapou da jaula. Mas não custa repetir o aviso: René Girard está à solta. O que ele vem fazendo - preparem-se - pode-se resumir na fórmula única de um plano supremamente maligno: destruir a quaternidade sagrada positivismo-marxismo-estruturalismo-freudismo que domina o horizonte das ciências humanas, e colocar em seu lugar nada menos que o bom e velho cristianismo.
Mesmo no Velho Mundo, onde o sacerdócio do culto estabelecido se sente mais fortinho ao ponto de não querer deixar sem resposta uma provocação desse calibre, as reações tomaram apenas a forma de imprecações e rosnados, seguidos de um silêncio amuado. "Fantasias!", protestou Claude Lévi-Strauss - e mais não disse nem lhe foi perguntado. Nenhuma objeção detalhada o bastante para passar por séria elevou-se contra o empreendimento girardiano, que vai exercendo uma influência cada vez maior nos terrenos mesmos onde a exclusão do cristianismo desfrutava do prestígio de uma exigência metodológica primeira.
O mais irônico da história é que Girard é homem alheio à agitação intelectual parisiense, vivendo há quase meio século em Stanford, Califórnia, e publicando em inglês boa parte de sua obra.
Mas onde, precisamente, ataca Girard o templo do academicismo? "Não se vence realmente senão aquilo que se substitui", dizia Nietzsche. Girard não perde tempo criticando teorias e escolas: oferece uma explicação melhor para os fenômenos sobre os quais elas reinavam soberanas, e ei-las desprovidas de razão de ser, pairando no ar como inúteis flocos de espuma.
A substituição é global e repentina. Onde cada uma dessas escolas, além de ter lá suas fragilidades intrínsecas, não conseguia abranger senão um grupo especializado de fenômenos, deixando os outros às vizinhas que não raro a contradiziam na base, o sistema Girard, como veio a ser chamado, reúne tudo num bloco - leis, instituições, costumes, mitologias, valores, obras de arte - e submete o conjunto a um mesmo princípio explicativo, simples e poderosamente convincente. A nova chave das ciências humanas demite, de um só golpe, o complexo de Édipo e a luta de classes, as estruturas do parentesco e todos os demais ícones teóricos, que só conservam seu antigo prestígio em longínquas terras do Terceiro Mundo ainda não abaladas pelos ecos da revolução girardiana.
O princípio encontrado por Girard pode-se resumir em um parágrafo. Todas as instituições humanas têm origem ritual, e o ritual resume-se no sacrifício. O sacrifício consiste em descarregar sobre um bode expiatório, vítima inocente e indefesa, os ódios e tensões acumulados que ameaçavam romper a unidade social. Estes ódios e tensões, por sua vez, surgem da impossibilidade de conciliar os desejos humanos. A razão desta impossibilidade reside no caráter mimético do desejo: cada homem não deseja isto ou aquilo simplesmente porque sim, porque é bonito, porque é gostoso, porque satisfaz alguma necessidade, mas sim porque é desejado também por outro ser humano, cujo prestígio cobre de encantos, aos olhos do primeiro, um objeto que em si pode ser inócuo, ruim, feio ou prejudicial. O mimetismo é o tema dominante da literatura, assim como o sacrifício do bode expiatório é o tema dominante, se não único, da mitologia universal e do complexo sistema de ritos sobre o qual se ergue, aos poucos, o edifício político e judiciário. A vítima é escolhida entre as criaturas isoladas, inermes, cuja morte não ofenderá uma família, grupo ou facção: ela não tem vingadores, sua morte portanto detém o ciclo da retaliação mútua. Mas a paz é provisória. Por um tempo, a recordação do sacrifício basta para restabelecê-la. Nesta fase a vítima sacrificial se torna retroativamente objeto de culto, como divindade ou herói cultural. Ritualizado, o sacrifício tende a despejar-se sobre vítimas simbólicas ou de substituição: um carneiro, um boi. Quando o sistema ritual perde sua força apaziguante, renascem as tensões, espalha-se a violência que, se não encontrar novas vítimas sacrificiais, leverá tudo ao caos e à ruína. A sociedade humana ergue-se assim sobre uma violência originária, que o rito ao mesmo tempo encobre e reproduz.
Mas essa violência funda-se, essencialmente, numa ilusão. O sacrifício não tem, por si, o poder de gerar efeitos benéficos. Se estes acabam por se produzir, é por intermédio da crença generalizada que despeja os ódios sociais no inocente e aplaca uma sede de vingança irracional que a sociedade atribui a um deus, mas que vem dela mesma. Esta crença, por sua vez, vem do desejo mimético, que, se escolhe por objeto uma miragem, pode se satisfazer igualmente com uma miragem de causa quando se trata de explicar a origem dos males humanos.
Assim fecha-se o sistema: o mimetismo causa a insatisfação, a insatisfação causa os ódios, os ódios ameaçam a ordem social, a ordem social se restaura mediante o sacrifício do inocente, que então vira mais um deus no panteão do engano universal.
O ciclo sacrificial só é rompido uma única vez na História, com o advento do cristianismo. Cristo proclama a inocência das vítimas, a inocuidade dos sacrifícios, a falsidade dos deuses vingativos: "Todos os que vieram antes de Mim são ladrões." Ele substitui a vingança social pelo arrependimento individual, restabelecendo o nexo racional entre os atos e as conseqüências, antes nublado pela mitologia sacrificial. Da desmistificação do sistema antigo nasce não somente a consciência moral autônoma, mas a possibilidade do conhecimento objetivo da natureza: Cristo inaugura a primeira civilização - a nossa - que sabe haver mais justiça no perdão do que na vingança, mais verdade no nexo impessoal de causas e efeitos do que na atribuição de um poder maligno àqueles que desejamos matar.
A massa de documentos que Girard, paleógrafo de formação, submeteu a meticulosas análises de texto para comprovar sua teoria é impressionante: vai das primeiras mitologias indo-arianas às obras de Proust.
Não menos impressionante é a mudança de perspectiva que, sob o impacto da teoria girardiana, sofre a nossa visão das idéias e conflitos contemporâneos. O totalitarismo, por exemplo, aparece como o estado fatal a que caminha um mundo que, tendo rejeitado o antigo sistema mitológico sacrificial, não deseja pôr em seu lugar o cristianismo: não há saída senão voltar à matança de vítimas humanas, sob os nomes de "burguesia", "judeus", "reacionários", "negros impuros", "políticos corruptos", etc. O nazismo surge, a essa luz, como uma oposição frontal ao cristianismo, preconizada por Nietzsche em páginas que defendem, abertamente, o retorno aos sacrifícios humanos. O socialismo, em contrapartida, é o simulacro que pretende substituir o cristianismo, sugando as energias cristãs para colocá-las a serviço da caça ao bode expiatório. Nas democracias capitalistas, o mais temível forma de anticristianismo é o "politicamente correto", onde cada grupo, divinizando a própria autovitimização, se nomeia o sacerdote de novas vinganças sacrificiais.
Girard não diz isto em parte alguma, mas é altamente corroborador de suas interpretações o fato de que, de todos os povos discriminados e perseguidos, o único que não explora seus sofrimentos como meio para a conquista do poder de vingança é justamente aquele que mais vítimas forneceu à violência do século XX: o povo cristão, do qual pereceram pelo menos trinta milhões de membros no altar da perseguição religiosa - o jamais mencionado holocausto cristão.
Girard também não cita, entre seus precursores, certamente porque o desconhece, o nome do psiquiatra húngaro Lipot Szondi. Mas não é possível pensar em fenômenos como o desejo mimético e o bode expiatório sem lembrar a teoria do "complexo de Caim" que esse grande sábio colocou no lugar do artificioso "complexo de Édipo" freudiano, já na década de 20. Mas Szondi foi, ele próprio, um bode expiatório: ao lado dessa teoria, defendia também a raiz genética das doenças mentais, o que na época era considerado puro nazismo pela escola culturalista dominante (que preferia culpar "a educação", "os pais" etc.). Não ficava bem chamar Szondi de nazista, porque ele era judeu; mas, tão logo saiu do campo de concentração onde o haviam posto os nazistas, foi colocado na geladeira do esquecimento pelos democratas e socialistas.
29/05/98
http://www.olavodecarvalho.org/semana/9806bravo.html
Ódio político
Um dos traços mais inquietantes que podemos observar na mentalidade de nossos contemporâneos é que, neles, a intensidade da revolta político-social está quase sempre na proporção inversa das injustiças e privações que sofreram. Rarissimamente encontramos, entre os pobres e oprimidos, aquela dose quase psicopática de ódio radical que com tanta facilidade aflora nos discursos de intelectuais, de funcionários públicos, de gente da classe média e alta.
Uma primeira explicação -- ou desculpa -- com que se pode atenuar a estranheza do fenômeno é que a indignação dessas criaturas não brota de uma reação a danos pessoais que tenham sofrido, mas da contemplação, cruciante para suas almas sensíveis, de males infligidos a terceiros.
Essa explicação surge quase por automatismo à simples formulação da pergunta, e ela parece até superlativamente satisfatória, na medida em que não somente explica, mas justifica. Não sendo a expressão de mágoas pessoais, mas de um zelo impessoal pela defesa de direitos alheios, a indignação político-social já não é um simples sentimento, um fenômeno psíquico qualquer que pudesse necessitar de explicação, mas a expressão de um juízo moral obrigatório.
A questão parece, pois, resolvida, o estranhamento dissipado in limine.
Tudo estaria bem se não observássemos a facilidade com que o cumprimento desse suposto dever moral impessoal assume a forma de um ódio pessoal, visceral, profundo e avassalador a certos indivíduos, que aos olhos do indignado personificam ou representam as causas da injustiça, mesmo quando estas causas, no mesmo instante, são explicadas por forças históricas e sociológicas tão impessoais quanto as razões morais alegadas para legitimar a indignação.
Hannah Arendt diante de Eichmann meditava sobre a “banalidade do mal”, subentendendo a inexistência de ódio pessoal na máquina burocrática de extermínio comandada pelo célebre genocida. Mas, enquanto a filósofa se perdia nessas considerações, o psiquiatra Leopold Szondi, em exaustivos testes de personalidade (depois publicados em "Caim e o Cainismo na História Universal"), demonstrava acima de qualquer dúvida razoável a quantidade excepcional de ódio que latejava na alma do carrasco. Sem esse ódio, ele não poderia comandar pessoalmente a máquina impessoal. A lógica do homicídio desenvolvia-se aí em dois planos. No plano da legitimação ideológica, o “judeu” que cabia a Eichmann exterminar era uma entidade coletiva abstrata, um fator sociológico que o partido lhe dissera ser a causa dos males da Alemanha. No plano da ação diária, porém, esse fator sociológico a ser exterminado tomava a forma de seres humanos de carne e osso, que eram mandados para o matadouro em pessoa. O que era exterminado neles não eram os caracteres familiares, religiosos ou culturais que faziam deles "judeus": era simplesmente o seu corpo. A passagem da sentença coletiva para a execução individual era tão problemática, do ponto de vista do senso comum, que não se podia operar sem o concurso de uma poderosa força psíquica: o ódio político. O ódio político, impessoal nos seus motivos, pessoal no seu objeto, consiste precisamente nessa incongruência viva: odiar um homem por algo que, admitidamente, não é ele, ou que ao menos não é propriamente ele.
O ódio político não pode, pois, em última análise, surgir nem desenvolver-se sem uma concomitante cisão esquizóide da consciência, indispensável a que um ser humano adulto aceite devotar-se seriamente à operação mágica de tentar suprimir universais abstratos por meio da destruição de um certo número de seus exemplares individuais -- matar cavalos na esperança de suprimir a cavalidade.
Não há dúvida de que esterilidade intrínseca dessa operação é uma das causas da proliferação epidêmica de atos de violência ritual que, quanto mais se afastam do resultado esperado, tanto mais se reproduzem por absoluta incapacidade de gerar qualquer outra coisa senão sua própria repetição compulsiva.
Também não há dúvida de que o próprio ódio pode, em ricochete, apagar de tal modo no agressor sua consciência da humanidade de suas vítimas, que a motivação do crime se transmute como que numa impessoalidade de segundo grau: nas palavras de Che Guevara, o guerrilheiro que “no pierde la ternura jamás” é o mesmo que aspira a se transformar numa “eficiente e fria máquina de matar” (palavras textuais). Como ninguém pode ao mesmo tempo estar imbuído de ternura e de frieza assassina para com um mesmo objeto, a ternura e a frieza têm, logicamente, objetos distintos: o guerrilheiro é terno diante de uns, friamente assassino diante de outros. O que separa essas duas classes de objetos é um critério ideológico impessoal, mas o resultado disto é que o guerrilheiro, ao matar impessoalmente pessoas de carne e osso, tem de lhes recusar a condição de pessoas, que as habilitaria a ser objetos de ternura: a vítima deixa de ser pessoa no instante mesmo em que, sob a alegação de motivos impessoais, é pessoalmente assassinada. “Endurecer sín perder la ternura” é a fórmula de uma cisão esquizofrênica voluntária, que busca reafirmar a humanidade do assassino no instante mesmo em que a nega na vítima por meio de um artifício lógico já antecipadamente admitido como falso.
Gerado no ventre de um erro lógico, alimentado por um auto-engano existencial, o ódio político, com todas as suas pretensões de alta moralidade, é um dos mais desprezíveis sentimentos humanos. E hoje permitimos que, a pretexto de "educação", esse sentimento seja instilado no nossos filhos desde a mais tenra infância.
http://www.olavodecarvalho.org/semana/01132002zh.htm
Olavo de Carvalho Zero Hora
, 13
de janeiro de 2002
Um dos traços mais inquietantes que podemos observar na mentalidade de nossos contemporâneos é que, neles, a intensidade da revolta político-social está quase sempre na proporção inversa das injustiças e privações que sofreram. Rarissimamente encontramos, entre os pobres e oprimidos, aquela dose quase psicopática de ódio radical que com tanta facilidade aflora nos discursos de intelectuais, de funcionários públicos, de gente da classe média e alta.
Uma primeira explicação -- ou desculpa -- com que se pode atenuar a estranheza do fenômeno é que a indignação dessas criaturas não brota de uma reação a danos pessoais que tenham sofrido, mas da contemplação, cruciante para suas almas sensíveis, de males infligidos a terceiros.
Essa explicação surge quase por automatismo à simples formulação da pergunta, e ela parece até superlativamente satisfatória, na medida em que não somente explica, mas justifica. Não sendo a expressão de mágoas pessoais, mas de um zelo impessoal pela defesa de direitos alheios, a indignação político-social já não é um simples sentimento, um fenômeno psíquico qualquer que pudesse necessitar de explicação, mas a expressão de um juízo moral obrigatório.
A questão parece, pois, resolvida, o estranhamento dissipado in limine.
Tudo estaria bem se não observássemos a facilidade com que o cumprimento desse suposto dever moral impessoal assume a forma de um ódio pessoal, visceral, profundo e avassalador a certos indivíduos, que aos olhos do indignado personificam ou representam as causas da injustiça, mesmo quando estas causas, no mesmo instante, são explicadas por forças históricas e sociológicas tão impessoais quanto as razões morais alegadas para legitimar a indignação.
Hannah Arendt diante de Eichmann meditava sobre a “banalidade do mal”, subentendendo a inexistência de ódio pessoal na máquina burocrática de extermínio comandada pelo célebre genocida. Mas, enquanto a filósofa se perdia nessas considerações, o psiquiatra Leopold Szondi, em exaustivos testes de personalidade (depois publicados em "Caim e o Cainismo na História Universal"), demonstrava acima de qualquer dúvida razoável a quantidade excepcional de ódio que latejava na alma do carrasco. Sem esse ódio, ele não poderia comandar pessoalmente a máquina impessoal. A lógica do homicídio desenvolvia-se aí em dois planos. No plano da legitimação ideológica, o “judeu” que cabia a Eichmann exterminar era uma entidade coletiva abstrata, um fator sociológico que o partido lhe dissera ser a causa dos males da Alemanha. No plano da ação diária, porém, esse fator sociológico a ser exterminado tomava a forma de seres humanos de carne e osso, que eram mandados para o matadouro em pessoa. O que era exterminado neles não eram os caracteres familiares, religiosos ou culturais que faziam deles "judeus": era simplesmente o seu corpo. A passagem da sentença coletiva para a execução individual era tão problemática, do ponto de vista do senso comum, que não se podia operar sem o concurso de uma poderosa força psíquica: o ódio político. O ódio político, impessoal nos seus motivos, pessoal no seu objeto, consiste precisamente nessa incongruência viva: odiar um homem por algo que, admitidamente, não é ele, ou que ao menos não é propriamente ele.
O ódio político não pode, pois, em última análise, surgir nem desenvolver-se sem uma concomitante cisão esquizóide da consciência, indispensável a que um ser humano adulto aceite devotar-se seriamente à operação mágica de tentar suprimir universais abstratos por meio da destruição de um certo número de seus exemplares individuais -- matar cavalos na esperança de suprimir a cavalidade.
Não há dúvida de que esterilidade intrínseca dessa operação é uma das causas da proliferação epidêmica de atos de violência ritual que, quanto mais se afastam do resultado esperado, tanto mais se reproduzem por absoluta incapacidade de gerar qualquer outra coisa senão sua própria repetição compulsiva.
Também não há dúvida de que o próprio ódio pode, em ricochete, apagar de tal modo no agressor sua consciência da humanidade de suas vítimas, que a motivação do crime se transmute como que numa impessoalidade de segundo grau: nas palavras de Che Guevara, o guerrilheiro que “no pierde la ternura jamás” é o mesmo que aspira a se transformar numa “eficiente e fria máquina de matar” (palavras textuais). Como ninguém pode ao mesmo tempo estar imbuído de ternura e de frieza assassina para com um mesmo objeto, a ternura e a frieza têm, logicamente, objetos distintos: o guerrilheiro é terno diante de uns, friamente assassino diante de outros. O que separa essas duas classes de objetos é um critério ideológico impessoal, mas o resultado disto é que o guerrilheiro, ao matar impessoalmente pessoas de carne e osso, tem de lhes recusar a condição de pessoas, que as habilitaria a ser objetos de ternura: a vítima deixa de ser pessoa no instante mesmo em que, sob a alegação de motivos impessoais, é pessoalmente assassinada. “Endurecer sín perder la ternura” é a fórmula de uma cisão esquizofrênica voluntária, que busca reafirmar a humanidade do assassino no instante mesmo em que a nega na vítima por meio de um artifício lógico já antecipadamente admitido como falso.
Gerado no ventre de um erro lógico, alimentado por um auto-engano existencial, o ódio político, com todas as suas pretensões de alta moralidade, é um dos mais desprezíveis sentimentos humanos. E hoje permitimos que, a pretexto de "educação", esse sentimento seja instilado no nossos filhos desde a mais tenra infância.
http://www.olavodecarvalho.org/semana/01132002zh.htm
Escrito por Miguel Nagib | 01 Dezembro 2012
Artigos - Educação
Nota do Escola Sem Partido: Artigos - Educação
A mensagem abaixo - escrita na primeira pessoa do singular, mas assinada por duas professoras -, foi enviada ao ESP sob o título “Direito de resposta ao artigo 'Conteúdo imoral na escola'”, publicado na Gazeta do Povo; em azul, os comentários do coordenador do ESP, Miguel Nagib.
Li a reportagem publicada no jornal gazeta do povo, dia 18 de novembro, pelo advogado Miguel Nagib. Fiquei chocada, revoltada, indignada com o que o senhor advogado escreveu sobre a profissão que escolhi. Uma coisa é ficar revoltado com fatos, que digo isolados, outra coisa é generalizar.
1 - Não escrevi nada sobre a profissão que a senhora escolheu. Afinal, ensinar aos filhos dos outros o que é boquete, sexo anal, e coisas do gênero não faz parte das atribuições de um professor. Ao contrário: se fizer isso sem estar autorizado pelos pais dos alunos, o professor estará infringindo o art. 12 da Convenção Americana de Direitos Humanos.
2 - A senhora não pode afirmar que os fatos mencionados no meu artigo sejam isolados. O livro “Mamãe, como eu nasci?”, de onde foram tiradas as frases em destaque no parágrafo seguinte da sua mensagem, foi adotado, por exemplo, pela rede municipal de ensino de Recife. Não me parece que seja pouca coisa.
3 - Além disso, como é impossível saber o que acontece a cada instante em todas as salas de aula, temos obrigação supor que esses fatos podem estar ocorrendo em muitas escolas, principalmente porque não faltam "especialistas" com a mentalidade do Sr. Marcos Ribeiro, autor do livro "Mamãe, como eu nasci?". Repito o que disse no artigo: “pelos ‘vazamentos’ podemos estimar o volume e a qualidade do esgoto moral que circula pelas tubulações do sistema de ensino”.
4 - Em todo caso, a senhora mesmo reconhece que “grande parte da educação de valores que as crianças têm recebido, quem lhes garante é a escola”. Ou seja, reconhece que a violação ao art. 12 do CADH é uma realidade nas escolas brasileiras; e é isso o que importa.
Concordo que os fatos mencionados no segundo parágrafo da matéria são absurdos:
“...Em Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, um professor de Educação Física resolveu fazer uma “brincadeirinha” com seus alunos: quem errasse a jogada tinha de responder a perguntas como “você é virgem”?” ou “já fez sexo oral em Fulano?” Em Recife, crianças de 7 a 10 anos aprendem em sala de aula que “brincar com o pênis e com a vulva é gostoso” e que “o papai acha muito gostoso quando seu pênis fica duro”. Em Contagem (MG), o dever de casa dos alunos do 4.º ano de uma escola municipal – falamos de crianças de 10 anos – é responder “o que é sexo anal”, “o que é boquete“ e “como dois homens fazem sexo”.” Não é a maneira correta, indicada a trabalhar um assunto que é obrigatório e faz parte do currículo escolar que gera tantas dúvidas, tantas perguntas, e é tido ainda como tabu pela maioria das famílias.
5 - A senhora acha absurdos os fatos mencionados no artigo, mas muitos dos seus colegas de magistério defendem com unhas e dentes o ensino desse tipo de conteúdo nas escolas. Veja, por exemplo, a opinião da orientadora pedagógica da escola de Contagem-MG.
6 - A senhora se engana ao afirmar que esses assuntos são obrigatórios. Ao contrário: obrigatório, de acordo com o art. 12 da Convenção, é NÃO tratar desses assuntos em disciplina obrigatória. Se o governo quiser usar o sistema de ensino para promover uma agenda moral, deve fazer isso por meio de uma disciplina facultativa.
7 - Os professores não podem ser obrigados por quem quer que seja a transmitir aos alunos conteúdos que se choquem com a sua própria consciência moral: para isso é que existe a garantia constitucional da liberdade de cátedra.
8 - Por outro lado, as famílias têm todo o direito de não querer que esses assuntos sejam abordados em sala de aula. A tentativa de desqualificar essa escolha com o rótulo de “tabu”, além de claramente preconceituosa, é reveladora do quanto vocês, educadores iluminados, se consideram superiores aos pais dos seus alunos.
Mas caro senhor advogado, não queira citar o referido artigo 12 da Convenção Americana de Direitos Humanos para embasar sua crítica, quando a realidade é justamente o contrário.
Atualmente, grande parte da educação de valores que as crianças têm recebido, quem lhes garante é a escola.
9 - “Garante”? A senhora acha que a escola está fazendo um grande bem às crianças ao usurpar a autoridade moral dos seus pais?
10 - Peço licença para citar a Prof. Olga Pombo, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa: “A educação para valores é um disparate! O grande valor que o professor tem a ensinar é o valor do conhecimento.”
No cotidiano das escolas públicas o que mais encontramos são famílias desestruturadas, e não estou me referido a falta do modelo nuclear de família (pai, mãe, filhos). Refiro-me a falta de condições de saúde, higiene, social, falta de estrutura familiar, onde para seu conhecimento, caro advogado e para quem não é da área, não é incomum encontrarmos crianças que são plateia durante o ato sexual de seus pais.
11 - Ainda que essa fosse a situação de todos os alunos -- e não o é sequer da maioria --, os professores não poderiam usurpar o direito dos pais de dar aos seus filhos a educação moral que esteja de acordo com as suas convicções.
12 - Faça o seguinte, professora: se a senhora quiser ajudar essas crianças, ensine-as a ler, escrever e fazer conta. Se fizer isso, já está ótimo.
Desta maneira o senhor vem propor que se retire a disciplina (ou conteúdo) de educação sexual?
13 - Na verdade, eu não estou propondo coisa nenhuma; só quero que a lei seja cumprida.
É neste momento que as crianças podem tirar suas dúvidas, já que em casa, mesmo assistindo o ato sexual, elas são proibidas de tocar no assunto.
14 - A senhora acredita mesmo que as crianças precisam de um professor para tirar esse tipo de dúvida? Eu diria que elas precisam de um professor para lhes ensinar Português e Matemática, e que informações sobre sexo elas vão obter de um jeito ou de outro, como nós obtivemos.
15 - A senhora argumenta como se 9 em cada 10 crianças presenciassem regularmente cenas de sexo em casa, e tivessem necessidade de ser esclarecidas a respeito, o que evidentemente não corresponde à realidade.
16 - Além disso, nem todas as crianças têm o mesmo tipo de dúvida ou curiosidade na mesma época da vida. Assim, ao tratar desses assuntos em sala de aula, o professor está nivelando o conhecimento de todos pela demanda de alguns, e isso, além de caracterizar uma violação ao art. 12 da CADH, configura um desrespeito à individualidade e ao processo de amadurecimento de cada aluno, o que ofende o Estatuto da Criança e do Adolescente.
E, ao contrário do que o senhor advogado afirma, não foram os professores que “decidiram educar nossos filhos por nós”, foram às [sic] famílias, algumas em virtude das obrigações do dia-a-dia de seus trabalhos, outras por puro comodismo, que delegaram estas funções à escola.
17 - A senhora tem tanto direito de presumir que os pais dos seus alunos lhe delegaram a função que lhes cabe na formação moral dos seus filhos, quanto de se apropriar de um objeto que foi confiado à sua guarda.
18 - A única forma legítima de a escola tomar para si essa função inerente ao pátrio poder é perguntar formalmente aos pais dos alunos se eles concordam que esse conteúdo seja ensinado aos seus filhos. Mas antes, é claro, os pais têm direito de conhecer esse conteúdo ponto por ponto. A julgar pela reação da sociedade ao kit gay, eu diria que muitos não vão concordar.
E me espanto com sua opinião a cerca [sic] da escola, respeitado advogado, ao comparar a escola com um esgoto. Ao que se ensina, com lixo. O que vaza das escolas, os vazamentos das redes de ensino... Muito fácil é criticar a roupa da vizinha, que está suja, mas esquece-se de olhar para sua janela e verificar que, na realidade, é sua vidraça que se encontra imunda.
19 - Por favor, professora, leia de novo o meu texto, e veja se eu comparei escola com esgoto, e o que se ensina com lixo. Agora, se o problema for de má-fé, esqueça.
Em todas as profissões encontramos bons e maus profissionais, mas isso não quer dizer que todos cometem o mesmo erro. Quando um médico comete um erro em uma operação quer dizer que todos os médicos são relapsos? Ou quando um advogado passa a perna ou engana um cliente, quer dizer que todos são de índole duvidosa ou desonestos?
Mas, muito fácil, prático, e lucrativo para alguns, é propor processos, multas. Se vamos processar que comecemos então pelos pais negligentes com a saúde de seus filhos, com a educação deles... Para quando houver 100% de pais presentes, que levem seus filhos ao dentista por causa daquela dor de dente que vem sendo informada há duas semanas pela escola, ao pediatra quando lhes é informado sobre caroços com mau cheiro na cabeça de seus filhos, aí sim pensem em processar os professores/escolas por algo que foi dito, ou feito em sala.
Até porque, se cada professor que fosse ofendido em nosso país abrisse um processo certamente faltariam respeitados advogados para representar e acompanhar esses processos.
20 - Não é uma questão de bons ou maus profissionais; é uma questão de limites. Os pais têm direito de dar aos seus filhos a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções. Os professores não podem usurpar esse direito.
Até então, os professores têm exercido outros papéis além do de professores. Têm sido muito mais psicólogos que professores. Têm sido muito mais assistentes sociais que professores.
21 - E têm falhado vergonhosamente em ser apenas... professores! Basta ver o desempenho dos estudantes brasileiros.
Ou, vamos nós professores, começar a ajuizar ações contra os pais de nossos alunos, por negligencias em diversos aspectos, propondo multas por não levarem seus filhos à escola, por não levarem ao médico, por não levarem ao dentista, por não levarem ao psicólogo, neurologista, fonoaudiólogo, oftalmologista... E assim por diante. Seria justo, já que, seremos processados e/ou multados por ensinar o que os pais se recusam a fazer em casa.
22 - Nunca lhe ocorreu que se os pais se recusam a ensinar certas coisas aos seus filhos é porque acham que não devem fazê-lo?
Só quem está em uma sala de aula com mais de 30 alunos, sabe como é difícil o nosso trabalho. Pessoas que nunca tiveram [sic] nessa situação não podem falar muito, mas seria bom se todas as pessoas pudessem passar alguns dias em uma sala de aula para depois poder da [sic] sua opinião, até porque toda versão sempre tem dois lados.
23 - Ninguém precisa entrar numa sala de aula para saber o que está escrito no art. 12 da CADH. Aliás, ninguém precisa ter lido o art 12 da CADH para saber que cabe aos pais dar aos seus filhos a formação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções. Isso é um direito natural, inerente, como eu disse, ao pátrio poder.
24 - A propósito, gostaria de citar mais uma frase da Prof. Olga Pombo:
«Fechar a porta de uma sala e ter lá dentro 20 ou 30 crianças e um professor mais velho é um fenômeno muito estranho, em que muito pouca gente pensa. (...) Portanto, eu sou completamente contrária à ideia de abrir a escola ao meio e a toda essa conversa fiada que, em última análise, só serve para desmantelar esse lugar mágico que é a sala de aula.»
O que nossa sociedade está esquecendo é que para formar todos os profissionais existentes, e para que as pessoas possam refletir e escrever aquilo que quiserem em uma folha de papel, ela precisou do auxilio de um professor que sem nenhuma valorização, sendo ofendido diariamente por pais, alunos e sociedades, que leva nas costas a responsabilidade por uma sociedade que está em pleno caos e vivendo em uma época de barbárie, mas que apesar de tudo isso, com muita dedicação, amor e respeito, possibilita aquisição desse conhecimento.
Fica aqui registrado não só a minha, mas a indignação de muitos profissionais que fazem o possível e o impossível pela educação desse país.
25 - Confesso que suas palavras não me comovem. Não sou especialmente grato pelo trabalho dos professores. Que eu saiba, ele é remunerado. Tive bons e maus professores. Mais maus do que bons, infelizmente. Meus filhos também. Socialmente falando, o resultado do trabalho de vocês é vergonhoso, para dizer o mínimo. Cito apenas um dado: quase 40% dos estudantes universitários brasileiros “não dominam habilidades básicas de leitura ou escrita. Ou seja: são analfabetos funcionais.”
26 - Repito, professora: se a senhora realmente deseja ajudar seus alunos, principalmente os mais pobres, ensine-os a ler, escrever e fazer conta. E deixe que o resto eles aprendem sozinhos ou com seus pais.
Miguel Nagib, advogado, é coordenador do grupo Escola Sem Partido.
http://www.midiasemmascara.org/artigos/educacao/13639-duas-professoras-contra-o-artigo-conteudo-imoral-na-escola.html
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Velho truque
Escrito por Olavo de Carvalho | 29 Novembro 2012
Artigos - Cultura
“Hegemonia” é isso: o domínio invisível e insensível exercido sobre as consciências pela força da repetição e do hábito impregnado na linguagem, nas rotinas, no “senso comum” (no sentido gramsciano do termo).
Um dos mais velhos truques da propaganda comunista no Brasil é esconder-se por trás de algum comunista americano desconhecido nestas plagas e cantar vitória: “Está vendo? Até os ianques dizem que...” Partindo da premissa popular de que ser americano é um atestado de anticomunismo, até a voz da KGB em inglês soa como uma potente confirmação direitista de qualquer mentira pró-comunista que se pretenda impingir ao cândido leitor brasileiro.
Sempre foi assim. Quando eu era adolescente, esfregavam-me no nariz os artigos de Drew Pearson e me esmagavam com o argumento fulminante: “Está vendo? Até os ianques dizem que...” Acabei, é lógico, acreditando, sem saber que as fontes de informações de Pearson eram dois agentes soviéticos -- coisa que só chegou ao meu conhecimento quatro décadas depois, mas ainda é totalmente ignorada pelo público maior, o qual já nem lembra quem foi Pearson e que tremenda influência teve na política americana.
O engodo tornava-se ainda mais persuasivo quando reforçado por um constante bombardeio de artigos e estudos eruditíssimos que nos provavam por a + b que a mídia americana inteira era um instrumento de propaganda imperialista. Qualquer agente comunista minimamente treinado sabe que a maneira mais eficaz de persuadir a platéia não é usar de um argumento lógico continuado, mas jogar com a tensão entre dois argumentos aparentemente opostos (em geral um implícito, o outro explícito). Quando até os imperialistas admitiam que Fidel Castro era um combatente pela democracia ou que os vietcongues eram patriotas sem um pingo de ideologia comunista nas veias, que brasileiro teria a ousadia de dizer o contrário?
Sempre foi assim. A diferença é que agora esse truque, antigamente usado apenas na imprensa comunista, se tornou norma de redação na grande mídia e multiplicou por mil o seu poder de confundir e ludibriar.
Façam uma revisão do que leram nos jornais brasileiros a respeito de Barack Hussein Obama ao longo das campanhas eleitorais de 2008 e 2012 e verão que, com exceções infinitesimais, as opiniões aí expressas foram de dois tipos e somente dois:
(a) Barack Obama é um progressista moderado, a voz da América esclarecida em luta contra o obscurantismo reacionário e racista.
(b) Barack Obama, sob a aparência de bom moço, é um imperialista ianque como qualquer outro, um “falcão” empenhado em esmagar o pobre mundo sob as patas do Império americano. A única diferença entre ele e John McCain, ou Mitt Romney, é que pelo menos ele não é um caipirão racista como eles.
Forçado a escolher entre o bem absoluto e o mal menor, nos dois casos o “idiota padrão”, que é como nas redações se denomina o leitor médio, acabava sempre ficando com Barack Obama. Se as eleições fossem no Brasil, o candidato democrata teria 99 por cento dos votos sem precisar adulterar as maquininhas como fez em Ohio e na Pensilvânia.
O benefício secundário dessa técnica é habituar o leitor a escolher entre duas opiniões esquerdistas e a acreditar que com isso está desfrutando de um dos prazeres maiores de viver numa democracia, que é o de poder tomar posição livremente nos debates públicos. Com isso, pouco a pouco a democracia vai se reduzindo ao “centralismo democrático” leninista – a livre discussão dentro do Partido --, sem que a multidão bocó perceba a diferença.
Por fim, a coisa mais maravilhosa: com o tempo, os jornalistas sem filiação ideológica explícita se adaptam ao modelo, por mera imitação dos colegas mais velhos, e acabam por se tornar os mais eficientes colaboradores da manobra comunista, justamente porque não têm nenhuma consciência de estar a serviço dela e rejeitam, com esgares de indignação ou trejeitos de sarcasmo, a hipótese de que estão servindo de idiotas úteis. Aliás é precisamente por essa razão que são chamados de idiotas úteis.
“Hegemonia” é isso: o domínio invisível e insensível exercido sobre as consciências pela força da repetição e do hábito impregnado na linguagem, nas rotinas, no “senso comum” (no sentido gramsciano do termo). Construí-la é, por definição, obra de muitas décadas, apoiada na passagem das gerações e no esquecimento coletivo. Só um conhecimento muito fino da história cultural e psicológica da sociedade em que vivemos, aliada a um rigoroso exame retrospectivo da nossa própria biografia interior e à firme disposição de encontrar a verdade para além de toda a pressão do nosso grupo de referência, pode nos libertar de uma influência grudenta e anestésica que se impregna em nossas almas como uma segunda natureza. As pessoas habilitadas a fazer esse exame contam-se nos dedos das mãos, e são ainda mais raras na classe universitária, onde a adaptação ao vocabulário e aos cacoetes mentais do ambiente são condições necessárias da sobrevivência escolar e profissional. A construção da hegemonia aposta na estupidez, na preguiça, no espírito de imitação e na covardia intelectual, qualidades que raramente faltam aos jovens universitários ávidos de reconhecimento.
P. S. Alguém me envia cópias de e-mails que circulam numa lista de discussões entre “professores de lógica” das universidades brasileiras. O objeto da discussão é a minha pessoa. Todos ali se consideram importantes demais para discutir comigo em público, mas têm tempo de sobra para fofocar a meu respeito pelas costas, a salvo da possibilidade de um revide. Um dia talvez eu comente aqui o conteúdo das fofocas, coisa de uma miséria intelectual (e moral) capaz de levar o leitor às lágrimas.
http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/13638-velho-truque.html
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